3 de jun de 2016

'Cidade Aberta'

Um beco sem saída

É comum os jornais estamparem manchetes sobre novas empresas vindo para Sete Lagoas e, ao lado, sobre o aumento da violência na cidade. A primeira é lida pela maioria das pessoas de forma alvissareira e a segunda, com temor. No entanto, já passou da hora de lê-las como faces de uma mesma moeda: o nosso modelo econômico contém, ele próprio, o DNA da violência.

Há uma década e meia, Sete Lagoas ingressou nesse modelo industrial financiado por capital externo. Isso não é uma exclusividade local: em toda a América Latina, as grandes corporações têm evitado as deseconomias das metrópoles e buscado melhores condições de produção nas cidades médias. As estatísticas populacionais e de PIB comprovam isso.

Se esse fenômeno era e é inevitável, a forma de lidar com ele não precisava e não precisa ser subjugada. Desde o início, há evidências de que ele seria, aqui, tão degradador do ambiente urbano e das relações socais quanto foi nas regiões metropolitanas. Ainda assim, a cidade limitou-se a festejá-lo e negou-se a fazer uma leitura mais crítica e definir estratégias para lhe atribuir um mínimo de sustentabilidade.

A violência é um dos preços a pagar. Está ruim e vai piorar. Ela faz parte do negócio. Ou alguém acredita que reuniões e audiências indignadas, na Câmara, e clamores inconsequentes, de nossas lideranças políticas, por aumento de efetivo policial vão mudar alguma coisa?

A gravidade desse tema requer um enfrentamento em todas as frentes: desde a revisão do modelo econômico com perspectiva de desconcentração e regionalização, passando pela redução das desigualdades urbanas, especialmente quanto às disparidades de urbanização entre os bairros centrais e os periféricos, até medidas emergenciais relacionadas ao uso de inteligência e tecnologia no monitoramento da criminalidade e na integração das ações de segurança pública.

Isso, no entanto, não ocorre e não vai ocorrer. O poder público municipal não entende nada desse assunto e não quer entender; fala bobagem, uma atrás da outra; se encanta com soluções mágicas e descontextualizadas; e se satisfaz com embustes retóricos inúteis, enquanto a sociedade assiste a tudo, atônita e, incompreensivelmente, passiva. Um beco sem saída!

[Artigo publicado na coluna Cidade Aberta no jornal SETE DIAS em 03/06/2016]

Nenhum comentário: