3 de jun de 2016

'Cidade Aberta'

O nome disso não é modernidade

Cobradores de lotação, faz tempo, estão com os dias contados. Eles integram aquelas profissões que vão perdendo a razão de ser pela extinção de suas funções; no caso, pela substituição do trabalho humano pela bilhetagem eletrônica. Uma coisa, entretanto, é que esse processo ocorra por força da realidade; outra, de maneira precipitada e temerosa.

Não sou usuário frequente de transporte público, mas tenho ouvido relatos bastante preocupantes. Tudo começa pelo fato de que o uso de bilhetes eletrônicos ainda seria minoritário, exclusivo de assalariados que os recebem de empresas. A população em geral não teria estímulo a adquirí-los por motivo óbvio: como os bilhetes da Turi e dos alternativos não são sincronizados, se alguém compra de um, não anda no outro. Ou seja, pagar em dinheiro continuaria sendo mais vantajoso. E se há dinheiro, há cobradores.

Segundo meus amigos, ainda assim, a Turi estaria retirando o cobrador de suas linhas, transferindo a sua função para o motorista. Ele passaria, então, a ficar responsável por operar o veículo, ficar atento ao trânsito caótico e ao próximo ponto de parada, aos passageiros embarcados, cuja segurança é de sua responsabilidade, por controlar a entrada e saída de pessoas e, de quebra, por receber a passagem e dar troco. Uma multifuncionalidade concentrada num trabalhador que tem uma das profissões mais estressantes do país.

Em tese, o motorista deveria exercer a função de cobrador apenas com o ônibus parado. O ponto crítico estaria justamente aí: na pressão do trânsito, nem sempre isso é possível e ele estaria sendo  obrigado a dar troco enquanto troca a marcha. Isso é admissível?

A lei nos obriga a entender que veículos, mesmo os de passeio, são máquinas mortíferas. Por isso mesmo, a atenção é obrigatória e qualquer tipo de dispersão é proibida. Não se pode dirigir, por exemplo, falando ao celular; mas se pode dirigir contando dinheiro?

Uma coisa são as tendências ditadas pela vida moderna; outra, muito diferente, é, em nome delas, impor o interesse econômico empresarial em prejuízo à segurança dos cidadãos. O nome disso não é modernidade. É outra coisa!

[Artigo publicado na coluna Cidade Aberta no jornal SETE DIAS em 29/05/2016]

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