22 de mai de 2016

'Cidade Aberta'

Apartheid

Na imprensa internacional, o ministério do governo interino, composto exclusivamente por homens brancos, causou espanto. Na imprensa nacional, sempre muito tendenciosa, alguns jornalistas ainda tentaram justificar o injustificável com o papo de que não se escolhe ministros por sexo ou cor, mas por mérito. Se isso é verdade, é uma verdade que não se aplica ao governo Temer. 

Uma análise dos nomes dos novos ministros mostra que não há notáveis ali, como se anunciou, mas uma composição política claramente destinada a assegurar que não haja reversão de votos pró-golpe, no Congresso, para afastamento definitivo da presidente eleita Dilma Rousseff. Apenas isso.

Como resultado, o ministério mistura nomes velhos, bastante conhecidos por fichas corridas suspeitas, e nomes novos, todos de políticos de carreira sem nenhuma experiência nas áreas que vão gerir. Tome-se, por exemplo, toda a área social, ministérios críticos como os da Educação e da Saúde com ministros neófitos e inaptos.

A falta de mulheres e negros traz consigo uma simbologia. Em primeiro lugar, de que se trata de um governo de traços patriarcais. Opostamente a isso, tem-se o caso do Canadá, onde o governo tem uma formação totalmente diversificada. Indagado sobre o porquê de seu gabinete ser formado metade dele por mulheres, o primeiro ministro Justin Trudeau, no ano passado, respondeu: “porque estamos em 2015”. Temer deve dizer que ainda está no século XIX.

Em segundo lugar, de que se trata de um governo que, ao privilegiar o Congresso, não se preocupa em dialogar com o país e representá-lo. A maioria da população brasileira é formada por mulheres e não-brancos que não se enxergam lá. Não há nenhuma diferença entre a formação do governo Temer e a dos sul-africanos do apartheid.

Por fim, quando se trabalha com a falácia de que o mérito está vinculado a uma superioridade de homens brancos tem-se um governo preconceituoso, racista e misógino. Esse me parece ser o ponto mais importante: não apenas por uma questão de época e representatividade, mas, exatamente, em nome da meritocracia, nenhuma organização no mundo moderno pode prescindir de mulheres, negros e de qualquer minoria. Constitucionalmente, isso é crime!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS  em 20/05/2016]

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