15 de mai de 2016

'Cidade Aberta'

Um negócio da China

Em geral, a política parece ter o seu melhor desempenho quando se descola da realidade. A dura vida real raramente lhe oferece o glamour e o sucesso rápido de que ela precisa. Só num mundo paralelo, com temas emprestados ou artificiais, livre de percalços, ela encontra palanques mais favoráveis.

O tema da violência urbana, em Sete Lagoas, é um bom exemplo. Vira e mexe, ele é retirado de seu contexto dramático para motivar reuniões e audiências alegóricas; ele sai das marginais páginas policiais para frequentar as exaltadas páginas políticas dos jornais. Coisa de dias: muito oba-oba, desempenhos heroicos, ganhos políticos e fim. Na vida real, a insegurança segue a mesma, de mal a pior.

A invencionice costuma ser mais interessante. Lembra-se, caro leitor, quando inventaram, no governo passado, uma fantástica indústria de reciclagem de lixo, de altíssima tecnologia, que para cá viria? Lembra-se da expedição sete-lagoana que partiu para o primeiro mundo para conhecer a novidade? Pois então: o assunto morreu, antes da volta de nossos aventureiros, e nunca mais se falou nisso. Nosso lixo segue aí, como antes.

E o Polo Educacional e Tecnológico, de três anos atrás? No mundo da ilusão, negociações, acordos, anúncios bombásticos de uma revolução no nosso desenvolvimento; no mundo real, bem, que mundo real?

A onda, agora, é um negócio da China! Até onde entendi, empresas chinesas estão interessadas em nós. Isso é ótimo! Mas, como gato escaldado, me indago se, de novo, não estamos viajando no mundo do faz de conta. De largada, não é estranho que a nossa missão precursora à cidade de Yixing só tenha agentes políticos e nenhum empresário? Desde Marco Polo, em sua viagem pela rota da seda, China é negócio e negócio depende de empresários; ou não?

Já sabemos que a Ilha do Milito será um lindo memorial chinês, já sabemos que um esplêndido dragão chinês ficará boiando na Lagoa Paulino, já sabemos da “extraordinária cooperação” para trazermos tecnologia chinesa de segurança pública, mas, concretamente, e as empresas e os investimentos? Em quê? Com que tecnologia? Com que perspectiva de desenvolvimento local e regional?

OK, OK, estou sendo um estraga-prazer; não pergunto mais.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS EM  13/05/2016]

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