15 de mai de 2016

'Cidade Aberta'

O desterro das utopias de esquerda

Na Câmara, o golpe foi um show de horrores. No Senado, segue como um vergonhoso teatro do absurdo. Crime, comprovadamente, não se aponta; mas há uma maioria já acertada, disposta a conspirar. Em menos de uma semana, vai se abrir um período difícil para o país: uma presidente legítima será afastada, um presidente ilegítimo estará em exercício e a crise política ganhará fôlego novo. É nesse contexto que se darão as eleições municipais de outubro.

Em muitas cidades, a crise nacional deve acirrar as polarizações locais. Em Sete Lagoas, por certo, não. Aqui, todas as forças políticas, com mais ou menos capital, que pretendem disputar a Prefeitura são apoiadoras do golpe. O PP aliado ao PSDB, o PMDB, o PSB e o PSD junto ao PPS votaram e votarão a favor de Temer e Cunha.

Os partidos que têm se batido firmemente pela legalidade no país, como o PCdoB e o PSOL, na prática, inexistem aqui. O PT existe, mas não terá voz ativa, silenciado por sua aliança com o PP.

Essa realidade oferecerá para as pessoas que, no arco ideológico, posicionam-se do centro à direita, que formam a maioria do pensamento sete-lagoano, uma diversidade de candidaturas à escolha. Ignoro quais discursos as diferenciarão, neste momento em que a política releva projetos e sobrevaloriza a disputa do poder pelo poder.

Em compensação, para aquelas outras, minoritárias, que, ideologicamente, optam por estar do centro à esquerda, onde me coloco, ou mesmo para as que, ainda que conservadoras, procuram na política alguma racionalidade discursiva, a falta de opções será evidente. Em apuros, elas irão às urnas divididas entre contrariar a própria convicção ou apertar a tecla nulo.

Talvez esteja aí um primeiro efeito futuro do golpe em curso: a retomada do prestígio das teses neoliberais que, no plano das cidades, defendem a sua irrestrita mercantilização, como espaço natural dos interesses privados, e o desterro das utopias de esquerda, defensoras de ideias, aparentemente fora de moda, de cidades mais igualitárias, menos violentas, de maior valor público e de melhor qualidade de vida.

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