22 de abr de 2016

'Cidade Aberta'

Parlamentarismo de clientela

É inútil discutir a decisão da Câmara pelo impeachment da presidente. Ela passou longe de qualquer apreciação séria sobre razões jurídicas e políticas capazes de justificá-lo ou não. Os deputados que votaram sim, em especial, não pelos votos dados, mas pelos seus motivos bizarros, ofereceram um show deprimente ao país. Com desempenhos histéricos, teatrais, não pareciam estar decidindo algo gravíssimo, mas se exibindo numa festa de várzea. Dedicaram seus votos a Deus e ao diabo, mas não cumpriram seu dever institucional, naquele momento crítico. Independentemente da opinião de cada um, não concebo a ideia de que cidadãos ajuizados não tenham se sentido envergonhados com aquele circo. Se bem que os fogos comemorativos, na cidade, ao final do espetáculo, deram a entender que muita gente gostou do que viu.

Ainda que eu fale só por mim ou por uma minoria, o fato é que não consigo validar aquela ópera bufa, vê-la além de uma encenação política de baixíssimo nível e dar-lhe outro nome que não o de golpe.

A realidade expõe a farsa. O caso da terceira deputada mais votada em Sete Lagoas foi patético. Na noite de domingo, saltitante, ela votou sim, dez vezes, em homenagem ao marido que, como prefeito de Montes Claros, estaria mostrando que ‘o Brasil tem jeito’. Mal clareou o dia, viu seu marido ser preso pela PF por suspeita de fraude contra o sistema público de saúde. Que jeito é esse?

A dúvida é se o Senado, agora, agirá com a mesma fanfarronice ou observará o senso de responsabilidade, decência e justiça que o país merece, num julgamento dessa magnitude.

Pressinto estarmos caindo numa cilada. A confirmação das notícias desta semana – de que Cunha será anistiado pelos serviços prestados pró-golpe, de que os votos dos senadores já são favas contadas, de que, de novo, os aspectos jurídicos do processo serão descartados e tudo se reduzirá a uma armação política – remete à instituição tácita de um parlamentarismo de clientela. Doravante, com ou sem crime, presidentes da República só governarão caso se humilhem frente ao Congresso. A esse Congresso que só enxerga maridos, esposas, filhos, netos e rincões amados; mas país algum.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no SETE DIAS em 22/04/2016]

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