22 de abr de 2016

'Cidade Aberta'

Politicagem

O presidencialismo de coalizão – modelo que obriga o presidente eleito a formar maioria parlamentar para garantir estabilidade – entrou em colapso em 2013 e tornou-se um dos principais objetos de repúdio dos brasileiros. Tanto mais repúdio quanto mais essa prática tem que lidar com partidos políticos cada vez mais vulgares, explicitando um toma-lá-dá-cá sempre mais vergonhoso. O curioso, no entanto, é como a população recrimina essa prática no plano federal, ignora no estadual e admite, com naturalidade, na sua vizinhança municipal.

Tome, caro leitor, o caso de Sete Lagoas.

O PMDB local, por exemplo, é o mesmo que, no país, rompeu com o PT e lidera o golpe à democracia; o mesmo que, em Minas, apoia o governo do mesmo PT; e o mesmo que, na cidade, reúne lideranças tão heterogêneas quanto os pragmáticos da velha guarda, aecistas convictos, aecistas cooptados pela base governista estadual, toda a oposição ao prefeito e até aliados do prefeito. Qual a lógica?

De sua sorte, o PP daqui é o mesmo que, lá em cima, negocia seu passe a favor do golpe; o mesmo que apoiou os tucanos, em 2014 – portanto, em ambos os casos, contra o PT; e que, cá em baixo, na Prefeitura, tem como aliado justamente o PT. Isso é normal?

Nos últimos meses, na dança de cadeiras para aproveitar a brecha eleitoreira, essas contradições partidárias flagraram casos muito patéticos.

Em Brasília, por exemplo, um deputado, até dias atrás, petista, agora no bizarro Partido da Mulher Brasileira, converteu-se não em um ex-petista, mas em um antipetista, já que seu partido e ele próprio decidiram-se a favor do golpe, em traição aos seus companheiros de ontem. Qual a diferença disso para um político local que deixou o PT pelo PRB, partido igualmente golpista?

Entre lágrimas e palavras emotivas, a senha habitual é que não se deve misturar as coisas: lá é lá; cá é cá. Mas num contexto em que não há ideias nem programas, o que resta não é apenas interesse pessoal eleitoreiro, mais ou menos escuso, seja lá ou cá?

Não há um fio de coerência capaz de explicar tantas contradições. Na prática, o que sustenta a condenável politicagem nacional é a também condenável politicagem local. Se há diferença, é só de escala!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 15/04/2016]

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