12 de abr de 2016

'Cidade Aberta'

Soluções mágicas não existem

Tenho visto muita gente opinar favoravelmente ou não ao impeachment. É curioso que o impeachment tenha se tornado uma matéria opinativa. A rigor não deveria ser: ou se tem base jurídica e se aplica ou não se tem e não se aplica. Independentemente de opiniões individuais.

Há uma série de pretextos para essas opiniões que ignoram a falta de base constitucional para aplicação do impeachment e o colocam como mecanismo normal – o que não é – para deposição de uma presidente da República, por exemplo, porque ela não teria mais capacidade de governar. Tem-se aí uma premissa falsa: a de que o impeachment, por si, vai pacificar o país e criar, magicamente, condições adequadas de governabilidade. Quem pode afiançar que um impeachment ilegal, tomado como golpe, ao contrário, não exaltará ainda mais os ânimos, nessa guerra sem fim, abrindo espaço para desfechos mais temerosos?

Meu sentimento é que o país está obcecado pelo hoje e não é capaz de medir consequências e antever o amanhã. Esse me parece o ponto mais dramático do que estamos vivendo: com a óbvia falência do presidencialismo de coalizão, que funcionou como fator de estabilidade desde Itamar, não há como reencontrar essa estabilidade, dentro das instituições democráticas, senão por alguma forma de pactuação nacional. E, efetivamente, não há nenhum movimento para construção de um ambiente de reconciliação, patrocinado por quem quer que seja.  Qual a saída?

Fala-se, por exemplo, na convocação de Eleições Gerais para zerar o jogo. Mas, de novo: sem quebra das regras democráticas, também essa convocação, através de uma proposta de emenda à Constituição, requer um entendimento tão amplo quanto possível. Ou alguém acha fácil não só a presidente e o vice, mas todos os senadores e deputados serem convencidos a abrir mão de seus mandatos?

É um impasse? É um enorme impasse! Eu não tenho dúvida de que lançar mão de ilegalidades e inconstitucionalidades só fará agravá-lo e, pior, abrirá abismos intransponíveis. Soluções mágicas não existem. Ainda que alguns, nessa guerra, queiram acreditar nelas. Eu tenho perguntas, mas não tenho respostas. Por ora, apenas torço para que a nossa Democracia sobreviva a tanto desvario.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 08/04/2015]

3 comentários:

Anônimo disse...

Às vezes agimos como o doutor frankenstein, criamos nossos próprios monstros.
Meu caro.Esta premissa de que o impeachment é natural , desejado e quem sabe até uma verdadeira festa cívica, surgiu nos anos 90 com a deposição de Collor.
Ai sim houve a gênese desta solução mágica, mentiram para a população em geral, e principalmente para juventude alienada da época que o presidente doidão caiu por medo de suas caras pintadas, que eles eram o futuro da democracia e outras babaquices sem valor. Devem ter acreditado por estarem com a mentes vazias pelo axé music e los urros do Nirvana
Tentaram criar uma mentalidade semelhante há pouco, com a farsa dos Black Blocks de butique, aqueles infelizes que recebiam 30 canecos e uma quentinha pra sair na porrada com a PM, sem motivação alguma para isto, e que acabaram matando um cinegrafista com suas bombas “revolucionárias”.
Quando prenderam os dois fogueteiros heróis da classe operária, descobrimos tratar-se de dois imbecis: um vagabundo noiado e um analfabeto .que lá estava pelas 30 pilas...
Mas esquecendo da mediocridade vazia das sininhos de hoje em dia e voltando a malfadada era Collor, melhor, ao seu triste fim, quem apregoava vitória com a queda do mauricinho cheirador e transformou o instrumento jurídico do impeachment em matéria opinativa e salvação da pátria ? O PT.
Depois de mais de vinte anos, o PT cresceu em importância, esqueceu o esquerdismo panaca dos anos 70, evoluindo de partidinho pequeno chato e radicalóide,para a grande aberração imoral de hoje, atolado em contradições e na corrupção. Até virou aliado do collorido.
Este o verdadeiro leitmotiv da encrenca diária do (des )- governo Dilma. Esqueça o papo de palanque, hoje, não há caras pintadas e coxinhas reclamando,é a população é que encheu o saco da presidenta que saúda a mandioca e armazena vento.
Há ! Sim! , Não apoio e jamais apoiarei o Collor, mas justiça seja feita, aprendemos com seus ex inimigos do PT que;
Impeachment no dos outros é democrático, contra a gente é golpe;
Se perdermos nas urnas vamos tentar um impeachment, como Lula o fez, contra Collor e tentou contra FHC;
E por último: O monstro de frankenstein sempre se vira contra seu criador.
Outra coisa: a macumba que o Collor fez contra o PT demorou uns 24 anos para pegar...

Blog do Flávio de Castro disse...

Caro anônimo,

Antes vale lembrar que uma conversa não anônima é sempre mais saudável, não é mesmo?!

Mas a respeito de sua postagem, faço algumas observações:

1. Você responsabiliza o PT pelo impeachment de Collor. Isso não é fato. É bom lembrar que o impeachment decorreu de uma CPI motivada por denúncias na mesma Veja de hoje feitas pelo irmão do ex-presidente, a respeito do chamado esquema PC Farias. Comprovou-se que havia despesas pessoais do presidente pagas por esse esquema. Em seguida, quem entrou com o processo de impeachment foi a ABI e a OAB, não o PT. E tampouco o relator do impeachment foi um petista, mas um pemedebista;

2. Há uma diferença fundamental entre um impeachment e a proposta de outro. No caso Collor, comprovou-se envolvimento pessoal de ex-presidente; no caso Dilma, não há nada rigorosamente que a desabone e que motive juridicamente seu impedimento;

3. Sobre o radicalismo do PT, isso vale uma longa conversa. Já critiquei esse radicalismo por ele ter se negado a votar no Colégio Eleitoral, em 1984; já o critiquei por ele não ter apoiado o governo Itamar. Hoje me pergunto se não foi a perda desse radicalismo que levou o PT a perder o que tinha de mais autêntico e a se assemelhar aos outros partidos, especialmente nos seus mal-feitos.

Abs, Flávio

Anônimo disse...

Esqueci-me de assinar meu nome, desculpe.
Creio que às vezes somos mal interpretados, ou interpretados de forma errada, e talvez até pelo fato de ter vivido por anos analisando certos fenômenos pelo ponto de vista humano e do marketing político, meu comentário motivou alguma incompreensão quando escrevi sobre o ,impeachment do Collorido .
Na verdade me referia ao fato que na própria época houve uma hipervalorização do papel do PT no processo.
Vale a pena lembrar de que a chegada de Collor ao poder deu-se num segundo turno, no qual Lula “competiu só contra a besta fera das alagoas,” e ao final, perdeu para o dragão da maldade.. Esta perda gerou uma forte frustração, digamos assim, psicológica, nos militantes do partido, bem como um sentimento de que o PT levou uma lavada homérica por parte do restante da população.
.Claro que isto é também uma história velha, de uma época mais infeliz, quando as mulheres da classe C votavam no cara mais bonito, e os das classes mais altas nos que tinham um discurso mais radicalóide. E até idiota, como as vacas em cada esquina do gaúcho metido a carioca.
Mas vale a pena voltarmos ao tempo para lembrarmos que o tal saco roxo do superman do nordeste se deveu a uma faixa (desastrada) produzida por um diretório petista de um lugarejo ao qual não me lembro do nome, que dizia: “Pela derrubada do governo Collor”.Foi a deixa pro mesmo falar sobre o collorido fora do comum de sua genitália...Um espetáculo patético, onde o PT entrou com a tal anti-democracia que hoje reclama, e o virgulino de araque de Maceió, com sua habitual grossura.
É verdade que “derrubada” do homi veio por outros motivos e de forma mais sofisticada, mas que o PT sentiu-se vingado, isto foi verdade. Aposto que Collor, apesar de apoiar a estocadora de vento ao se lembrar dos anos 90 deva ter pagado e distribuído umas 1,000 faixas :’ pela derrubada do governo Dilma” lá por Brasília. Depois,imagino-o na intimidade de sua caverna,, em mais uma demonstração de seu nível de vingança rasteira, assistiu a tudo em sua TV de 400 polegadas, gargalhando miseravelmente cada vez que alguma de suas faixas era enquadrada nos telejornais.
Quanto aos radicais do passado meu caro, a história demonstrou que são iguais ao miojo, muito durinhos, mas só até irem pra panelinha, ai o macarrão fica maleável.. a chegada ao poder não combina com, discursos e demandas radicais, vide o que houve na França. da guilhotina.
Falando sério, na época que o partido tinha de mais autenticidade, e radicalismo, a turminha que hoje jaz na PF, já pensava em pixulecos. E me desculpe, nos 80 era eu já dizia que o PT era apenas mais um partido igual aos.outros,
Pelo visto a história de deu razão ( ou será o tempo o senhor da razão kkkkkkkk)
Abs, Luizão