3 de abr de 2016

'Cidade Aberta'

Apocalipse político

Nesses tempos de guerra, tenho amigos que pensam como eu, outros que não. Com muitos desses a troca de ideias tornou-se impossível, não pelas ideias, mas pela intolerância. Mas com aqueles que a amizade e o respeito falam mais alto não apenas o diálogo tem sido fácil, como a busca por decifrar esse momento, sob ângulos opostos, de parte a parte, tem sido um alento.

Falo desses amigos que discordam de mim: em que pesem as divergências, não me lembro de nenhum com quem falei, nos últimos dias, que estivesse se sentindo confortável com o rumo que a política tomou. A despeito das críticas ao governo e ao PT – que em parte concordo e em parte não, nenhum que acusasse a presidente Dilma, pessoalmente, de desonesta. Mesmo até entre os que querem vê-la fora do governo, nenhum que aceitasse a ideia de um atalho inconstitucional.

Falo desses amigos que discordam de mim: em tantas e tão angustiadas conversas, ainda que não queiram ser governados pelo PT, não me lembro de nenhum que aprovasse um processo de impeachment definido por uma comissão com 37 de seus membros acusados de corrupção. Um processo liderado por um presidente da Câmara, como Cunha [saudades de Ulisses!], com acusações ainda mais graves. E, em tendo sucesso, que apoiasse um governo presidido por um homem com índole desleal, como Temer [saudades de José Alencar e até de Marco Maciel!], por um partido fisiológico como o PMDB [saudades do velho MDB!], em aliança com nomes não apenas os mais ignóbeis, mas os mais patológicos do Congresso.

Lanço mão da opinião desses amigos que discordam de mim para afirmar que esse apocalipse político que a nação vive não tem nada a ver com antipetismo. Esse assalto ao poder não tem nada a ver com combate duro, apartidário e justo à corrupção. Essa barbárie insana não tem nada a ver com a superação da crise econômica.

Sob qualquer olhar, o que se vê não é apenas o uso golpista do instrumento do impeachment. É a mais cínica tentativa de apropriar-se desse momento de instabilidade nacional para, ardilosamente, subtrair o país não de um lado dele, mas de todos. Inclusive daquele que duvida que o que está em jogo não é a minha ou a sua opinião, mas a Justiça e a Democracia.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 01/04/2016]

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