24 de mar de 2016

'Cidade Aberta'

'Déficit de gestão'

Na semana passada, o inglês The Guardian publicou um ótimo artigo da jornalista Eliane Brum: ‘O mosquito do vírus Zika desmascara a desigualdade e a indiferença no Brasil’. Ela comenta que o governo federal está chamando os cidadãos a limparem suas casas, quando, na verdade, o mosquito tem proliferado pela negligência do estado. A certa altura, diz ela: “o Aedes desmascara um país caracterizado por enormes desigualdades, um sistema público de saúde frágil e uma vergonhosa falta de saneamento básico”. Nas devidas proporções, creio que isso se aplica a outras esferas de governo, inclusive à municipal.

Não que os cidadãos não devam ser responsabilizados e mantidos em alerta. Devem sim! Está provado que sem uma ação conjunta essa guerra não será vencida. Mas há momentos em que os governos, no plural, esquecem-se do estado em que têm deixado as cidades – os cursos d’água poluídos, as periferias abandonadas, as ruas esburacadas – para colocarem toda a culpa só na população. Isso está errado!

Em outro trecho, Brum indaga: "Que tipo de país pode ser denunciado por um mosquito? Pra começar, é um país onde Arthur Chioro, um médico treinado no campo da saúde pública foi removido do Ministério da Saúde no momento em que o ministério mais precisava ser liderado por por um médico de saúde pública". E mais, para ser substituído por um política de carreira, o deputado Marcelo Castro, que passou a se notabilizar, desde então, por frases desastradas sobre o vírus e a microcefalia. Ou seja, ela toca num assunto delicado - o do descompromisso da gestão da saúde - o que também nos atinge.

Eu conheço muito pouco o ex-secretário Breno Simões e menos ainda o atual Roney Gott para fazer comparações indevidas de um com Chioro e outro com Castro, em qaulquer ordem. mas o momento inoportuno da mudança de direção da Secretaria, no auge de uma epidemia de dengue, quando estabilidade gerencial é imprescindível, nos assemelha ao governo federal.

A propósito, a atual administração não teve dúvida em colocar a culpa pela última epidemia de dengue, em 2013, em um 'déficit de gestão' do governo Maroca. Pelo rumo dos fatos, torço muito para que, agora, ela não venha a pagar língua e nós, de novo, o pato!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 26/02/2016]

Nenhum comentário: