24 de mar de 2016

'Cidade Aberta'

Alpendres metafóricos

Faz muito tempo que as pessoas, ao construírem suas casas, passaram a desprezar o espaço do alpendre, interligando a rua, cá fora, e a sala, lá dentro. Antigamente, eram indispensáveis: cadeiras nos alpendres e calçadas constituíam-se em ambientes aprazíveis de convívio com transeuntes, com a vizinhança e com a família. Hoje, os alpendres acabaram; as casas se fecharam para a rua e ensimesmaram-se.

Quem veio primeiro: o ovo ou a galinha? As pessoas se isolaram entre muros, se resguardaram no seu protegido mundo interior porque o consumo exacerbado e individualista gerou novas famílias, com novos hábitos, alucinadas pelo uso de um grande aparato de tecnologia doméstica de entretenimento ou, antes, as cidades é que se tornaram inóspitas, perigosas, agressivas e obrigaram as pessoas a se proteger em refúgios inatacáveis?

O fato é que, no passado, as casas colocavam as famílias de frente para a rua, a cidade e a coletividade; hoje, as colocam de costas para a rua, a cidade e a coletividade. Em troca de uma cidadania de cadeiras em alpendres com convívio comunitário oferecem uma cidadania de sofá, em salas high tech, com convívio em redes sociais.

Os alpendres perderam! Refiro-me a alpendres metafóricos: o admirável lugar da interlocução, da mediação, do destemor entre o mundo privado e o mundo público. No lugar deles, ergueram-se muros com concertinas nada admiráveis para garantir que esses mundos não mais se toquem.

No entanto, alheio a tudo isso, o aedes aegipty irônico, voa de um lado a outro da muralha, levando e trazendo seus finos presentes: dengues, zikas e chikungunyas! Sem alpendres pra negociar, o agente público só adentra a inatacável privacidade, então, com custosos mandatos judiciais.

Atento a tudo isso, a violência, perversa, desdenha esse muro e acha brechas pra transpô-lo, levando seu amargo presente: o terror! A falta de alpendre diz para o bandido que ali vive uma vítima apavorada e desencorajada.

Refiro-me a alpendres metafóricos. Quanto mais os substituirmos por muros, quanto mais negarmos uma cidade plural em busca de nossos interiores decorados, mais estaremos construindo e nos tornando reféns de uma cidade maldita.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 04/03/2016]

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