24 de mar de 2016

'Cidade Aberta'

Terapia

Anos atrás, na OFICIO PROJETOS, desenvolvemos a arquitetura de uma garagem de ônibus em uma capital do Nordeste. Tinha um porte razoável: comportava mais veículos do que os que rodam em Sete Lagoas, hoje, somados os dos permissionários e da concessionária. Além dos desafios inerentes a esse tipo de projeto, havia dois adicionais impostos pela prefeitura local. Um, como se aplicava uma multa altíssima caso um ônibus ‘quebrasse’ em via pública, era que a garagem devia estar preparada para uma manutenção rigorosa. Outro, como condição de aprovação, que ela não podia gerar nenhum impacto no trânsito da região.

O primeiro foi fácil. Tivemos que aprender sobre manutenção preditiva e dotar o projeto de dispositivos adequados. O segundo nos exigiu um trabalho danado. Tivemos que projetar uma pista lateral de desaceleração e um bolsão de concentração de ônibus, dentro da garagem, e estudar toda a logística de manobras internas. O problema é que, em toda garagem, a maioria dos ônibus se recolhe no mesmo horário e cada um precisa ser identificado, varrido, lavado, inspecionado, abastecido e conduzido para o estacionamento ou para a manutenção. Nesse caso, com zero impacto externo. Foi um esforço memorável!

Eu pude me lembrar desse longo trabalho, com riqueza de detalhes, no longo tempo que fiquei parado, depois de passar pelo Pito, quando tomei a Olavo Bilac, noites atrás. De um lado e outro da rua, ônibus e mais ônibus estacionados. Do lado de cá, eu e mais dois veículos de passeio. Do lado de lá, uma carreta que não conseguia passar na estreita faixa gentilmente deixada livre pelos ônibus. Irritação generalizada!

A gente acostuma com tudo, inclusive com aberrações. O que se passa ali, todo dia, não é um caso de mero impacto no trânsito; é pior: é apropriação de via pública para um negócio privado muito lucrativo. Como, aliás, já se tornou hábito na cidade para vários negócios.

A prefeitura devia fazer terapia e descobrir qual é o seu papel. Ou cabe a ela organizar a via pública, inclusive cobrando faixa azul do cidadão comum, de mim e de você, para nela estacionar; ou isso não é sua função e tudo pode, livremente, para todos. Sem dois pesos e duas medidas!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 11/03/2016]

Nenhum comentário: