24 de mar de 2016

'Cidade Aberta'

Preconceito

O perfil dos manifestantes, no domingo, em SP, “se manteve muito elitizado” com “renda e escolaridade muito superiores à média da população”: 77% eram brancos, 77% tinham curso superior e 63% recebiam mais de 5 salários. Ou seja, a ampla maioria dos presentes tinha esse caráter “elitizado”, não na minha opinião, mas segundo o Datafolha.

Não vai aí nenhuma crítica: todo brasileiro tem direito a livre manifestação e deve exercê-lo ao máximo. Sem generalizar, a minha crítica é outra.

Um vídeo dos Jornalistas Livres, na internet, mostrou uma entrevista, na Paulista, com senhores e senhoras típicos desse perfil “elitista”. Rigorosamente tudo o que falaram era falso. Essa faixa da população que tem acesso a informação e se autodeclara formadora de opinião, na verdade, é ignorante ou, ainda que bem informada, forma convicção por preconceito.

Um exemplo: sobre a desigualdade durante os governos petistas, disseram que “a desigualdade aumentou visivelmente”. Mito! Segundo o Banco Mundial, entre 2001 e 2013, 36 milhões de brasileiros deixaram a extrema pobreza. Outro: sobre o Bolsa Família, não tiveram meias palavras: “eles [os pobres] ficam lá bebendo pinga, fazendo filho e vivendo às custas do governo”. Mito! A maioria dos beneficiários do BF é composta por mulheres pobres que não ficam bebendo pinga: o monitoramento de gastos indica absoluta seriedade no uso do dinheiro. Elas não ficam fazendo filhos: os dados do IBGE mostram que a taxa de fecundidade no Brasil já é inferior à taxa de reposição populacional e tem caído, nos últimos anos, especialmente entre mulheres pobres. E essas famílias não vivem às custas do governo: é impossível viver com um valor médio de R$ 165,00.

É espantoso como essas pessoas se irritam com o BF, que paga cerca de R$25 bilhões por ano aos pobres, mas não se importam com o gasto de quase R$450 bilhões por ano em juros da dívida, que o governo paga a rentistas ricos como várias delas.

Esse me parece o ponto mais dramático do impasse nacional que vivemos: o preconceito que oculta interesses pessoais ou de classe, de todos os lados, leva a discussões obsessivas sobre temas superados e impede o debate sobre o futuro. Um futuro cada dia mais nebuloso.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 18/03/2016]

Um comentário:

Anônimo disse...

Se me permite uma parte...
“Um vídeo dos Jornalistas Livres, na internet, mostrou uma entrevista, na Paulista, com senhores e senhoras típicos desse perfil “elitista”. Rigorosamente tudo o que falaram era falso.”
Meu caro, NÃO existe jornalismo 100% isento, isto se aprende no 1º ano do curso de jornalismo.
É o básico.
É o obvio.
A existência de grupos organizados na internet bancando serem jornalistas não os eleva ao nível do jornalismo profissional, são franco atiradores patéticos que mimetizam a forma do que assistem na TV, geralmente para explicar o inexplicável, ou ofender o maior número de vitimas do outro lado. Mimetismo patético e vil.
Fica ainda mais ridículo quando cometem erros grosseiros e tendenciosos, seja lá pra qual grupo pertençam, afinal observamos esta tendência do pseudo jornalismo na internet desde seus primeiros momentos, afinal este é o único lugar onde um estudante de sociologia ou o açougueiro da esquina podem arrogar-se no direito de produzir e publicar o vídeo que quiserem,sem medo de serem felizes,que pode ser sobre aliens ou sobre mitos do saci pererê... Afinal a internet, desde seu aparecimento é similar a parede de mictório público, onde qualquer descerebrado escreve o que quiser irresponsavelmente.
Fazer o quê? Filtrar as imbecilidades desta aberração pós-moderna.
Hoje está assim: Cada lado acredita em sua verdade e se acha no direito de propagá-la aos quatro ventos, Uns veem golpe, outros corrupção, e seja lá o lado, quem é enganado são aqueles iludidos pelos tais jornalistas “livres” e suas arengas.
Tristes tempos...