14 de fev de 2016

'Cidade Aberta'

Incapazes


Ultimamente, muitas pessoas têm tomado aversão à política. O principal pretexto tem sido a corrupção atribuída ao PT. Creio que corrupção é sim um motivo suficiente para aversão. Mas discordo desse pretexto, da forma apressada como é posto, por duas razões. Uma, porque ele partidariza um fato que sempre fez parte do Estado brasileiro, ainda que oculto. Outra, porque não entende a corrupção como sintoma de um problema maior: o do colapso de nossas lideranças.

Do alto de seus 90 anos, tudo o que o sociólogo polaco Zigmunt Bauman diz me interessa. Dias atrás, em entrevista ao El País, ainda que se referisse a outro contexto, ele foi ao ponto: “o que está se passando agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A crença de que os líderes não são só corruptos ou estúpidos, senão que são incapazes”.

Bauman me fez lembrar uma velha frase: para ser honesto na política, não basta não roubar, é preciso fazer! Ou seja, é preciso ser capaz!

Neste sábado, vi uma reportagem de mais um acidente horroroso, com vítimas fatais, na MG-424. Tente se lembrar, caro leitor, quantas vezes você ouviu promessas de governadores de duplicação da ‘estrada velha’? No mínimo, tantas vezes quantas eleições ocorreram, nesse tempo. E nada! Porque são incapazes!

Outro exemplo: a violência em Sete Lagoas. Ela só faz aumentar e amedrontar. Estão se tornando triviais mortes à luz do dia e arrastões em bares, ainda cedo da noite. E o que fazem as lideranças? Prometem sempre a mesma coisa – cobrar do governador, fazem reuniões midiáticas, auto-elogiam-se em outdoors, sem que, de fato, nada façam. Porque são incapazes!

Creio que a política passou a ter um fim em si, tornou-se uma extraordinária máquina de ascensão social e de promoção pessoal e deixou a sociedade ao relento, com os seus problemas aparentemente insuperáveis. Na mesma entrevista, Bauman também disse: “a política tem as mãos cortadas”. Outra vez: bingo!

Receio que o desestímulo com a política que vai se infiltrando em todos nós, no final das contas, seja, propositalmente, o que mais deseja essa política de mãos cortadas. Ou não?!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 29/01/2016]

Nenhum comentário: