14 de fev de 2016

'Cidade Aberta'

Os outros

A experiência cotidiana de vida urbana tem sido marcada pelo temor sem limites a tudo o que se desconhece. Tudo o que não está circunscrito ao que cada um chama de seu, tudo o que diz respeito aos outros ameaça. Os outros lugares: os lugares desconhecidos, fora da rotina de cada um, conspiram. Os lugares segregados, abandonados, periféricos, esquecidos apavoram. Os outros, homens e mulheres: os outros na rua, na janela do carro, no sinal acionam enormes sirenes de alerta. Os outros segregados, abandonados, periféricos, esquecidos afrontam a delicada segurança dos que não são os outros.

À segregação, mais segregação. Ou se perambula pela cidade fechado em carros de vidros escuros ou não se perambula.

À segregação, mais e mais segregação. A possibilidade de usufruto da cidade, dos seus espaços públicos, só é possível quando eles são resguardados na ilha da exclusividade de cada um: espaços cercados, espaços VIPs, espaços seguros, espaços sem os outros.

O temor, irmão de fé do preconceito, nunca foi tão achincalhado quanto neste Carnaval. Nunca tantos foram tão expostos aos outros. Sem cordas, sem grades, sem camarotes.

Em BH, blocos e mais blocos, com gente coloridíssima, onde todos – inclusive você – eram outros, também coloridíssimos, percorreram todos os cantos do centro e dos bairros, os lugares mais conhecidos e os mais inimagináveis. E, curiosamente, os lugares cercados – como o gradeamento sob o viaduto de Santa Tereza para alguns poucos, esses sim, se tornaram outros lugares, desconhecidos e perversos!

É verdade: o Carnaval não dura o ano inteiro! Essa exposição tão e tão mais improvável aos outros, esse reconhecimento normalizado da alteridade, essas portas escancaradas a uma cidade possível de ser percorrida a pé, de ponta a ponta, e de ser ocupada, de forma livre e plural, não duram o ano inteiro.

Mas também é verdade que toda experiência deixa marcas. Essa surpreendente e inaudita percepção, ainda que efêmera, de que o direito dos outros à cidade é tão legítimo quanto o seu e, mais do que isso, que só esse direito não elitizado e coletivizado é capaz de desmontar o medo e a segregação; essa percepção é inesquecível!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 12/02/2016]

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