14 de fev de 2016

'Cidade Aberta'

Usurpação

Se você trabalhasse transportando carga pesada num caminhão velho, fumando, com motor quase fundindo, de duas uma: você se esforçaria para retificar o motor e recuperar a capacidade de trabalho ou faria uma lanternagem geral para o caminhão parecer novo, ainda que continuasse se arrastando? A resposta parece óbvia, mas, na política, não é.

A atual administração recebeu a Prefeitura com problemas no motor: estrutura anacrônica, funcionalismo sem carreira estimuladora, base orçamentária estrangulada, salários atrasados e por aí afora. No entanto, ao invés de se preocupar em retificar a máquina, o que dá um trabalho danado, ela preferiu gastar o que não tinha na lataria, que mostra resultados vistosos, ainda que inúteis: mandou projetos de lei delegada para Câmara, criou uma centena de cargos e aumentou ainda mais o peso do caminhão, tudo sob um falso pretexto de modernização. Qual modernização?

O resultado está aí: os servidores estão sem receber desde novembro, não viram a cor do 13º e, além das dificuldades domésticas, voltam a conviver com o fantasma de serem uma classe sem prestígio no comércio local. Há três anos, não precisava ser um gênio da administração pública para cantar essa pedra: a farra seria paga pelo funcionalismo!

Esse parece ser um traço delirante da política atual: os políticos locais, no Executivo e no Legislativo, não se interessam por aprofundar o conhecimento e buscar soluções sensatas para os problemas da cidade, mas movem mundos e fundos para gerar fatos midiáticos que lhes possam trazer dividendos pessoais rápidos.

Algumas pessoas debitam à conta da incompetência ou da irresponsabilidade das nossas lideranças a atual situação financeira da Prefeitura. Não é nada disso; é pior. Seria incompetência e irresponsabilidade se elas tivessem interesse genuíno em superar fragilidades e tivessem dado com os burros n’água. Como não têm, o que se assiste é uma natural usurpação da política para ganhos pessoais. Valorização do funcionalismo, modernização de Prefeitura, tudo o mais é desprezível.

Isso explica bastante bem as coisas, entre o motor e a lataria, o mundo real fica com o motor; a política, com a lataria.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 15/01/2016]

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