14 de fev de 2016

'Cidade Aberta'

Sinais trocados

Em tempos de redes sociais, as pessoas andam tão compulsivamente opinativas, mas, paradoxalmente, tão desinteressadas em qualificar opiniões que se torna impossível chegar a entendimentos pacíficos sobre qualquer tema. Um deles, polêmico como nunca, é o da meritocracia.

Ao pé da letra, quem pode ser contrário a que os melhores postos, especialmente na área pública, sejam ocupados pelos mais dedicados e mais preparados? Ninguém, talvez. No entanto, como tem sido defendido o discurso da meritocracia é uma armadilha: propositalmente, ele confunde mérito com privilégio.

Duas notícias do Valor, desta semana, alertam para esse risco. A primeira, uma afirmação do economista Paes de Barros, um dos maiores especialistas em desigualdade social do país. No ponto: “Sem resolver a desigualdade de oportunidades, ficar falando em meritocracia é piada. Como discutir o mérito de quem chegou em primeiro lugar em uma corrida onde as pessoas saíram em tempos diferentes e a distâncias diferentes? ”

A segunda, uma passagem numa matéria sobre a persistência da desigualdade apesar de avanços na educação: “Independente do quanto se esforce, a chance de um aluno pobre concluir os estudos na idade certa e aprender o conteúdo esperado é, historicamente e ainda hoje, bem menor que a de um aluno rico. A probabilidade de sucesso piora se o aluno for negro, morar na zona rural ou na periferia das grandes metrópoles”.

Sem rodeios: quem prega a meritocracia, mas ignora esses pressupostos, está sendo ardiloso. Está apenas dando uma roupagem confessável ao interesse inconfessável de direcionar as melhores oportunidades para os mais aquinhoados!

Aí, vem um fato curioso: por que sempre se usa a meritocracia para atacar a política de cotas? Os sinais não estão trocados? Ora, quem tem convicção de que a meritocracia é o melhor caminho não deveria se preocupar, necessariamente, com o nivelamento do grid de largada, com ricos e pobres, pretos e brancos, maiorias e minorias, todos saindo ao mesmo tempo e a distâncias iguais?

Enfim, desdizendo os seus críticos, como política de nivelamento, a política de cotas não é o instrumento mais meritocrático da sociedade contemporânea brasileira?!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicada no jornal SETE DIAS em 05/02/2016]

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