14 de fev de 2016

'Cidade Aberta'

Uma utopia, por favor!

Colocando as paixões ideológicas de lado, tanto quanto possível, o que nos resta é um ano de 2015 de uma pobreza terrível. Desde meados de 2014, quando iniciou-se o processo eleitoral, até hoje, são impressionantes as cenas que a sociedade brasileira viveu. Do ódio de parte a parte, a um racismo absurdo de alguns e a um anacronismo militarista de outros, da falta de civilidade de muitos, a uma ruptura com a história de vários e a um desdém de outros tantos com nossa própria experiência democrática, chegamos ao pior dos mundos: atiradas todas as pedras, não temos nada nas mãos. Não temos um projeto para o país, senão apenas ideias velhas que vão e voltam, de olhos no passado, que indicam que os modelos que tínhamos se esgotaram. Não temos lideranças, senão apenas personalidades narcisistas que dizem muito pouco a muito pouca gente. Nem as ideias se inovaram, nem os homens se renovaram.

Talvez seja bom que essa realidade nua e crua tenha vindo a tona. Talvez seja um sinal de que todas as iras, todas as ignomínias, todos os racismos, todas as intolerâncias, todos os golpismos estavam latentes, bem ao lado, mas invisíveis. Talvez seja necessária essa crise, esse excesso de nada para que se abra um novo ciclo.

Ao comemorar esse Natal e esse Ano Novo tão estranhos, se eu pudesse pedir algo a alguém superior, ao velho de roupa vermelha, a energia cósmica, a Deus, eu pediria, apenas, uma utopia, por favor!

Não uma utopia qualquer, mas uma utopia antirracista, uma utopia democrática, uma utopia feminista, uma utopia para a educação que todo mundo fala que é o futuro da nação, uma nova utopia para os pobres para muito além de onde chegamos, uma utopia econômica mais justa, uma utopia para as cidades sem o drama da divisão e da violência, uma utopia para a moçada para que seja uma geração melhor do que a nossa, uma utopia sem lama, sem a lama de fato e sem todas as lamas metafóricas.

Uma utopia, por favor! Uma utopia pura, bruta, insurgente, corajosa, legítima, que reconstrua em nós a esperança na política, na nossa casa, na nossa rua, na nossa cidade, no nosso país.

Uma utopia, por favor! É o desejo que gostaria de compartilhar com você, caro leitor, uma utopia que inaugure um 2016 de muito ânimo e muita luta!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 24/12/2016]

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