14 de fev de 2016

'Cidade Aberta'

Indignação e perplexidade!

Toda convicção ideológica e toda prática política, de direita à esquerda, são legítimas desde que respeitadas as regras do Estado Democrático de Direito. Para além desse limite, qualquer ação é golpista e precisa ser rechaçada sem subterfúgios.

Sob o pretexto de um vale-tudo antipetista, o pedido de impeachment da presidente Dilma, eleita democraticamente, já tinha um caráter inconstitucional por não observar a necessária ocorrência de crime de responsabilidade. Juristas renomados e a própria OAB atestam que isso não pode ser imputado ela.

Indo além, as condições com que o pedido foi aceito pelo presidente da Câmara, como forma de retaliação pessoal, retira-lhe, ainda, qualquer margem de legitimidade.

O que se passou nesta semana, na Câmara, no entanto, ultrapassa questões de inconstitucionalidade e ilegitimidade para, definitivamente, escancarar a pretensão de um golpe à democracia. A sucessão de manobras ilegais e antirregimentais foi sórdida a ponto de obrigar o STF a intervir no processo.

Eduardo Cunha – que conseguiu pela sexta vez adiar a abertura de processo contra ele no Conselho de Ética – não age sozinho. A sua loucura golpista é sustentada pela oposição, capitaneada pelo PSDB e seu presidente Aécio Neves, e, mais recentemente, pelo PMDB e pelo vice Michel Temer, com sua carta pública, entre infantil e mesquinha.

Tudo em Brasília, hoje, é trama com os piores propósitos pessoais.

Além de indignação, as fotos do parlamento em guerra, publicadas nos jornais, levam à perplexidade. Entre tantos, não se vê ali rostos respeitáveis. Talvez, os dedos de uma mão sejam mais do que suficientes para contar os nomes que, para além do calor da luta, sejam capazes de enxergar o país e a crise em que ele está imerso.

Aí, me vem a velha frase do então senador Jefferson Péres que, no funeral de Arraes, 10 anos atrás, foi lapidar: “vão-se os carvalhos, ficam os arbustos”. Mais do que uma constatação, ela soa hoje como um vaticínio: é isso, tornamo-nos um país de arbustos!

Entre a falta de projetos e de lideranças nacionais, creio que cabe a nós cidadãos, a despeito de qualquer paixão política, avaliarmos a gravidade do momento e defendermos a nossa jovem democracia.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 11/12/2015]

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