13 de jun de 2016

O país dos elegantes

Eu confesso que não sei a verdade: não sei se Lula é ou não dono de um triplex no Guarujá como não sei se FHC é ou não dono de um apartamento na Avenue Foch, em Paris.
Sei apenas que a presunção de ser dono de um triplex no Guarujá é inequivocamente associada à corrupção e a presunção de ser dono de um apartamento em Paris não tem nada a ver, obviamente, com corrupção.
Especialmente se o apê do Guarujá for um tanto novo-rico e o apê de Paris, um tanto elegante.
A questão é estética.
Lula carregando uma caixa de isopor e sendo dono de um barco de lata é uma cômica farofa. Se FHC carregasse uma caixa de isopor e fosse dono de um barco de lata seria uma concessão à humildade.
A questão é classista.
Um Odebrecht sentado à mesa com FHC é um empresário rico. O mesmo Odebrecht sentado à mesa com Lula é um pagador de propina.
Nada disso tem a ver com corrupção. Nada disso revela qualquer preocupação com o país.
A cada dia que passa, é mais evidente que o que está em discussão é quem são os verdadeiros donos do poder.
E os donos legítimos do poder são os elegantes. Aqueles com relação aos quais não interessa saber como amealharam riqueza porque, simplesmente, a riqueza lhes cai bem.
A casa grande tem um perfume que inebria toda a lavoura arcaica e sensibiliza até a senzala. É o que estamos assistindo.
Tudo o mais, tudo o que não é casa grande é Lula e os amigos de Lula!
A questão é preconceito.
Vejam como um fraque cai naturalmente bem em FHC. Um fraque assim em Lula, certamente, deveria ter sido roubado.
O Brasil é o país dos elegantes. De uma elegância classista, racista e preconceituosa deitada eternamente no berço esplêndido do aristocrático século XIX.
[FHC, por favor, levante a gravata do seu lado direito, está um pouco torta, isso, perfeito!]


[Texto publicado originalmente no perfil do Facebook em 31/01/2016]

'Cidade Aberta'

Vã ilusão!

Já é por si lamentável que circunstâncias administrativas e pessoais tenham levado o governo municipal a fazer duas trocas de secretários da Saúde, em pouquíssimo tempo. Em áreas de gestão muito complexa, como é o caso, continuidade administrativa é desejável. O pior, no entanto, é que a posse do atual secretário tenha chegado aos jornais não com anúncios sobre novas prioridades da Saúde, mas apenas com a manchete de que sua missão é reduzir os gastos do setor. Aí é inadmissível!

3 de jun de 2016

'Cidade Aberta'

Um beco sem saída

É comum os jornais estamparem manchetes sobre novas empresas vindo para Sete Lagoas e, ao lado, sobre o aumento da violência na cidade. A primeira é lida pela maioria das pessoas de forma alvissareira e a segunda, com temor. No entanto, já passou da hora de lê-las como faces de uma mesma moeda: o nosso modelo econômico contém, ele próprio, o DNA da violência.

'Cidade Aberta'

O nome disso não é modernidade

Cobradores de lotação, faz tempo, estão com os dias contados. Eles integram aquelas profissões que vão perdendo a razão de ser pela extinção de suas funções; no caso, pela substituição do trabalho humano pela bilhetagem eletrônica. Uma coisa, entretanto, é que esse processo ocorra por força da realidade; outra, de maneira precipitada e temerosa.

22 de mai de 2016

'Cidade Aberta'

Apartheid

Na imprensa internacional, o ministério do governo interino, composto exclusivamente por homens brancos, causou espanto. Na imprensa nacional, sempre muito tendenciosa, alguns jornalistas ainda tentaram justificar o injustificável com o papo de que não se escolhe ministros por sexo ou cor, mas por mérito. Se isso é verdade, é uma verdade que não se aplica ao governo Temer. 

15 de mai de 2016

'Cidade Aberta'

Um negócio da China

Em geral, a política parece ter o seu melhor desempenho quando se descola da realidade. A dura vida real raramente lhe oferece o glamour e o sucesso rápido de que ela precisa. Só num mundo paralelo, com temas emprestados ou artificiais, livre de percalços, ela encontra palanques mais favoráveis.

'Cidade Aberta'

O desterro das utopias de esquerda

Na Câmara, o golpe foi um show de horrores. No Senado, segue como um vergonhoso teatro do absurdo. Crime, comprovadamente, não se aponta; mas há uma maioria já acertada, disposta a conspirar. Em menos de uma semana, vai se abrir um período difícil para o país: uma presidente legítima será afastada, um presidente ilegítimo estará em exercício e a crise política ganhará fôlego novo. É nesse contexto que se darão as eleições municipais de outubro.

30 de abr de 2016

'Cidade Aberta'

5 anos

Em 2011, o dia 29 de abril caiu numa sexta-feira. Naquela manhã, o SETE DIAS circulou pela primeira vez com esta coluna Cidade Aberta. Hoje, 29 de abril também cai numa sexta. A coluna continua aqui, nesse canto da página 2. E lá se foram 5 anos!

22 de abr de 2016

'Cidade Aberta'

Parlamentarismo de clientela

É inútil discutir a decisão da Câmara pelo impeachment da presidente. Ela passou longe de qualquer apreciação séria sobre razões jurídicas e políticas capazes de justificá-lo ou não. Os deputados que votaram sim, em especial, não pelos votos dados, mas pelos seus motivos bizarros, ofereceram um show deprimente ao país. Com desempenhos histéricos, teatrais, não pareciam estar decidindo algo gravíssimo, mas se exibindo numa festa de várzea. Dedicaram seus votos a Deus e ao diabo, mas não cumpriram seu dever institucional, naquele momento crítico. Independentemente da opinião de cada um, não concebo a ideia de que cidadãos ajuizados não tenham se sentido envergonhados com aquele circo. Se bem que os fogos comemorativos, na cidade, ao final do espetáculo, deram a entender que muita gente gostou do que viu.

'Cidade Aberta'

Politicagem

O presidencialismo de coalizão – modelo que obriga o presidente eleito a formar maioria parlamentar para garantir estabilidade – entrou em colapso em 2013 e tornou-se um dos principais objetos de repúdio dos brasileiros. Tanto mais repúdio quanto mais essa prática tem que lidar com partidos políticos cada vez mais vulgares, explicitando um toma-lá-dá-cá sempre mais vergonhoso. O curioso, no entanto, é como a população recrimina essa prática no plano federal, ignora no estadual e admite, com naturalidade, na sua vizinhança municipal.

12 de abr de 2016

'Cidade Aberta'

Soluções mágicas não existem

Tenho visto muita gente opinar favoravelmente ou não ao impeachment. É curioso que o impeachment tenha se tornado uma matéria opinativa. A rigor não deveria ser: ou se tem base jurídica e se aplica ou não se tem e não se aplica. Independentemente de opiniões individuais.

3 de abr de 2016

'Cidade Aberta'

Apocalipse político

Nesses tempos de guerra, tenho amigos que pensam como eu, outros que não. Com muitos desses a troca de ideias tornou-se impossível, não pelas ideias, mas pela intolerância. Mas com aqueles que a amizade e o respeito falam mais alto não apenas o diálogo tem sido fácil, como a busca por decifrar esse momento, sob ângulos opostos, de parte a parte, tem sido um alento.

24 de mar de 2016

'Cidade Aberta'

Justiça ou armação?

Caro leitor, permita-me fazer uma simulação. Pense num caso litigioso. Digamos que de um lado esteja um empresário, um empresário do gusa, como há por aqui; de outro, um ambientalista, como também há por aqui. O primeiro está sendo acusado de crime ambiental e corre o risco de ver sua empresa quebrar. O segundo está sendo acusado de calúnia e corre o risco de ver sua conta bancária quebrar.

'Cidade Aberta'

Preconceito

O perfil dos manifestantes, no domingo, em SP, “se manteve muito elitizado” com “renda e escolaridade muito superiores à média da população”: 77% eram brancos, 77% tinham curso superior e 63% recebiam mais de 5 salários. Ou seja, a ampla maioria dos presentes tinha esse caráter “elitizado”, não na minha opinião, mas segundo o Datafolha.

Não vai aí nenhuma crítica: todo brasileiro tem direito a livre manifestação e deve exercê-lo ao máximo. Sem generalizar, a minha crítica é outra.

'Cidade Aberta'

Terapia

Anos atrás, na OFICIO PROJETOS, desenvolvemos a arquitetura de uma garagem de ônibus em uma capital do Nordeste. Tinha um porte razoável: comportava mais veículos do que os que rodam em Sete Lagoas, hoje, somados os dos permissionários e da concessionária. Além dos desafios inerentes a esse tipo de projeto, havia dois adicionais impostos pela prefeitura local. Um, como se aplicava uma multa altíssima caso um ônibus ‘quebrasse’ em via pública, era que a garagem devia estar preparada para uma manutenção rigorosa. Outro, como condição de aprovação, que ela não podia gerar nenhum impacto no trânsito da região.

'Cidade Aberta'

Alpendres metafóricos

Faz muito tempo que as pessoas, ao construírem suas casas, passaram a desprezar o espaço do alpendre, interligando a rua, cá fora, e a sala, lá dentro. Antigamente, eram indispensáveis: cadeiras nos alpendres e calçadas constituíam-se em ambientes aprazíveis de convívio com transeuntes, com a vizinhança e com a família. Hoje, os alpendres acabaram; as casas se fecharam para a rua e ensimesmaram-se.

'Cidade Aberta'

'Déficit de gestão'

Na semana passada, o inglês The Guardian publicou um ótimo artigo da jornalista Eliane Brum: ‘O mosquito do vírus Zika desmascara a desigualdade e a indiferença no Brasil’. Ela comenta que o governo federal está chamando os cidadãos a limparem suas casas, quando, na verdade, o mosquito tem proliferado pela negligência do estado. A certa altura, diz ela: “o Aedes desmascara um país caracterizado por enormes desigualdades, um sistema público de saúde frágil e uma vergonhosa falta de saneamento básico”. Nas devidas proporções, creio que isso se aplica a outras esferas de governo, inclusive à municipal.

'Cidade Aberta'

Coincidência

A licitação para o transporte coletivo de Sete Lagoas, uma novela de anos, terminou de uma forma que não surpreende ninguém: a TURI, a empresa que detém a concessão do serviço há 25 anos, venceu o certame e continua na cidade por outros 15. Essa história de empresa que já presta serviço vencer nova licitação tornou-se habitual. Há pouco tempo, outra concorrência, aqui, então para limpeza urbana, teve o mesmo desfecho: foi vencida pela VINA, que também já prestava o serviço. Tanta coincidência tornar-se coisa habitual não quer dizer, no entanto, que é coisa normal.

14 de fev de 2016

'Cidade Aberta'

Os outros

A experiência cotidiana de vida urbana tem sido marcada pelo temor sem limites a tudo o que se desconhece. Tudo o que não está circunscrito ao que cada um chama de seu, tudo o que diz respeito aos outros ameaça. Os outros lugares: os lugares desconhecidos, fora da rotina de cada um, conspiram. Os lugares segregados, abandonados, periféricos, esquecidos apavoram. Os outros, homens e mulheres: os outros na rua, na janela do carro, no sinal acionam enormes sirenes de alerta. Os outros segregados, abandonados, periféricos, esquecidos afrontam a delicada segurança dos que não são os outros.

'Cidade Aberta'

Sinais trocados

Em tempos de redes sociais, as pessoas andam tão compulsivamente opinativas, mas, paradoxalmente, tão desinteressadas em qualificar opiniões que se torna impossível chegar a entendimentos pacíficos sobre qualquer tema. Um deles, polêmico como nunca, é o da meritocracia.

'Cidade Aberta'

Incapazes


Ultimamente, muitas pessoas têm tomado aversão à política. O principal pretexto tem sido a corrupção atribuída ao PT. Creio que corrupção é sim um motivo suficiente para aversão. Mas discordo desse pretexto, da forma apressada como é posto, por duas razões. Uma, porque ele partidariza um fato que sempre fez parte do Estado brasileiro, ainda que oculto. Outra, porque não entende a corrupção como sintoma de um problema maior: o do colapso de nossas lideranças.

'Cidade Aberta'

Essa nossa coleção de crateras

Em todo lugar, chuvas constantes são desastrosas para a pavimentação asfáltica das ruas. Numa cidade como Sete Lagoas, com severos problemas de drenagem urbana, seja pela topografia muito plana, seja em função do pouco prestígio que esse tema sempre gozou, nas várias administrações, a situação se agrava. De qualquer forma, as águas torrenciais dos últimos dias explicam, mas apenas em parte, o estado deplorável de nossas ruas, não aqui e ali, mas em toda a cidade.

'Cidade Aberta'

Usurpação

Se você trabalhasse transportando carga pesada num caminhão velho, fumando, com motor quase fundindo, de duas uma: você se esforçaria para retificar o motor e recuperar a capacidade de trabalho ou faria uma lanternagem geral para o caminhão parecer novo, ainda que continuasse se arrastando? A resposta parece óbvia, mas, na política, não é.

'Cidade Aberta'

Muitxs

Há tempos, eu venho acompanhando, ainda que à distância, as discussões do Muitxs, um coletivo de BH que reúne pessoas, grupos e movimentos sociais, sempre em espaços públicos e abertos, em torno de soluções novas para ‘a cidade que queremos’. Nesta semana, um conjunto de 10 propostas formulado pelo coletivo foi parar nas páginas do jornal O Tempo. Ainda que digam respeito à nossa capital, essas propostas, no espírito de cidade que elas traduzem, são muito inspiradoras para nós, sete-lagoanos.

'Cidade Aberta'

Uma utopia, por favor!

Colocando as paixões ideológicas de lado, tanto quanto possível, o que nos resta é um ano de 2015 de uma pobreza terrível. Desde meados de 2014, quando iniciou-se o processo eleitoral, até hoje, são impressionantes as cenas que a sociedade brasileira viveu. Do ódio de parte a parte, a um racismo absurdo de alguns e a um anacronismo militarista de outros, da falta de civilidade de muitos, a uma ruptura com a história de vários e a um desdém de outros tantos com nossa própria experiência democrática, chegamos ao pior dos mundos: atiradas todas as pedras, não temos nada nas mãos. Não temos um projeto para o país, senão apenas ideias velhas que vão e voltam, de olhos no passado, que indicam que os modelos que tínhamos se esgotaram. Não temos lideranças, senão apenas personalidades narcisistas que dizem muito pouco a muito pouca gente. Nem as ideias se inovaram, nem os homens se renovaram.

'Cidade Aberta'

Não termina nunca!

Há dois, três anos, quem imaginaria que estaríamos vivendo essa bagunça que o país virou? O ano de 2014 nos armou e nos pôs todos contra todos. Quem pensou que as eleições aplacariam os ânimos errou. 2014 não acabou e, em estado de ódio, invadiu 2015. Seguimos nós nessa guerra fria, o palco perfeito para todo tipo de dissenso e oportunismo. E o que é pior: uma pane de lideranças promete empurrar esse clima para 2016. A crise econômica virou fichinha perto da crise política. Enquanto as famílias brasileiras sofrem com uma insegurança crescente, a política se diverte.

'Cidade Aberta'

Indignação e perplexidade!

Toda convicção ideológica e toda prática política, de direita à esquerda, são legítimas desde que respeitadas as regras do Estado Democrático de Direito. Para além desse limite, qualquer ação é golpista e precisa ser rechaçada sem subterfúgios.