4 de dez de 2015

'Cidade Aberta'

Com brilho nos olhos

Sete Lagoas comemora, nesta semana, seus 148 anos. A data, inevitavelmente, fica um tanto sombreada pela proximidade com os seus 150 anos, logo à frente, tão mais simbólicos. Seja como for, cada um comemora a seu modo, entre a exaltação e a crítica.

As administrações municipais, como de hábito, tecem loas ao próprio trabalho. Estabelece-se aí a velha confusão entre a administração e a cidade, como se os feitos de uma sobrepusessem-se à história da outra. Vaidade comum à política.

Há quem enalteça Sete Lagoas como se a enxergasse apenas através dos cartões postais à venda nas bancas ou das fotos belíssimas expostas no site da Prefeitura. Um certo atropelo entre a paixão e a realidade.

E há, ainda, os que desdenham a data, afirmando não haver o que comemorar, fixados nas estatísticas crescentes de violência, no caos no trânsito, na desigualdade que estigmatiza, especialmente, a periferia. Também uma certa mistura entre o efêmero momento presente e a extensa experiência civilizatória vivida.

O melhor olhar, talvez, seja aquele capaz de enxergar a completude contraditória da cidade, da riqueza à miséria, da beleza à degradação. Desde que esse olhar não seja complacente; desde que esse olhar contenha o necessário incômodo que compreende que, entre tão brutais extremos, há uma Sete Lagoas a ser resgatada.

A cidadania individualista de hoje, apegada a sua própria e parcial visão de mundo, a política egocêntrica atual, ávida apenas por autoprestígio, não fazem justiça ao espírito, não do homem público em sentido estrito, mas do homem comum sete-lagoano, com extraordinário senso comunitário, que veio construindo esta cidade até os dias de hoje.

O colapso da cidade desafia a nossa geração; nos provoca e nos diz que não estamos à altura das tarefas do nosso tempo. Ele ri alto e nos ironiza.

A forma mais honesta de comemorarmos os 148 anos de Sete Lagoas e prepararmos o seu sesquicentenário, talvez, seja rompendo com essa cidadania cômoda e essa política cínica e, com brilho nos olhos, tendo a coragem e a determinação de construir uma cidade mais justa que não envergonhe os nossos avós, os nossos pais e a nós mesmos.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 27/11/2015]

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