14 de nov de 2015

'Cidade Aberta'

Obscurantismo

As câmaras de Sete Lagoas e Campinas viraram motivo de chacota, nas redes sociais, por terem aprovado monções dirigidas ao MEC, repudiando a inserção de uma questão no ENEM sobre igualdade de gênero. Se a questão, baseada na conhecida frase de Simone de Beauvoir de que “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, publicada no longínquo pós-guerra, pretendesse suscitar uma reação opinativa do estudante sobre o tema, ainda assim seria pertinente por sua atualidade. Não obstante, ela sequer teve essa intenção, focando, na verdade, na sua dimensão histórica, sobre com qual movimento essa frase havia contribuído na década de 1960. Testar o conhecimento do aluno de ensino médio sobre os movimentos de protesto, no mundo todo, em especial na França, naqueles anos, é algo absolutamente adequado, embora os vereadores não pensem assim.

Descontextualizar o pensamento filosófico, confrontar o conhecimento científico e negar fatos históricos é alguma coisa inquisitorial. A afirmação de Beauvoir de que o papel social da mulher é uma decorrência cultural é comprovada pela antropologia que mostra que em diferentes sociedades é diverso aquilo que “qualificam o feminino”. Por essa via, eu gostaria de ver a reação dos nobres edis frente a um sem número de frases de filósofos que foram fundamentais para a formação do pensamento contemporâneo. Temo só de imaginar na sua ira se o ENEM trouxesse à tona, por hipótese, o clima niilista do final do século XIX que Nietzche revelou com uma frase lapidar: “Deus está morto!” Melhor nem pensar.

Muitos tem creditado comportamentos assim a uma onda conservadora que tem tido sua mais nefasta expressão no Congresso Nacional, nas bancadas da Bíblia, da Bala, do Boi e da Bola. Eu acabo por concordar mais com os que dizem que para além de conservadorismo, o fundamentalismo que tem movido essa onda tem a marca do obscurantismo.

O lamentável é que, em todas as câmaras, com projetos e monções, quanto mais elas contribuem para o anedotário nacional, menos se mostram aplicadas em assuntos de gestão municipal que lhe são próprios. Não sem motivo, em temas como orçamento e contabilidade públicos ou legislação urbanística, por exemplo, elas nunca mostram o mesmo ímpeto.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 06/11/2015]

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