14 de nov de 2015

'Cidade Aberta'

Um sonho intenso

No último sábado, assisti a um documentário fantástico no canal Curta!, debatendo o processo de industrialização e o modelo de desenvolvimento brasileiros, de Vargas a Lula, a cada período político. Dentre outros,  contava com a participação de economistas como Adalberto Cardoso, Belluzzo, Maria da Conceição Tavares, José Murilo de Carvalho, Carlos Lessa, João Manuel Cardoso de Melo e Francisco de Oliveira. A um só tempo, mostrava, de maneira equilibradíssima e compreensível, tanto o lado contraditório quanto o evolutivo da história nacional, nesse quase um século. O nome era, em si, muito sugestivo: ‘Um sonho intenso’.

Dizem que pintores de grandes painéis, depois de horas trabalhando um pequeno detalhe, com o nariz a um palmo da tela, precisam dar passos e passos para trás para, serenamente, interpretarem o conjunta da própria obra. Foi um sentimento assim de lucidez que o documentário me trouxe. Especialmente nesse ano em que vivemos no calor da luta, com debates muito odiosos e acirrados, dar passos e passos para trás não é um mau conselho para darmos conta da imensa obra nacional que todos pintamos.

O que me interessou, foi não se tratar, sob qualquer viés ideológico, ainda que eles estivessem explícitos, de um documentário preocupado em estabelecer uma visão pessimista ou otimista do Brasil, mas, propriamente, um sentido de construção de país que, nesse tempo, teve democracias e ditaduras, avanços e recuos, mas saiu de uma economia arcaica, escravocrata e agrária para outra, moderna, industrial e urbana, ainda que, numa ponta e outra, malditamente, tenha permanecido sempre desigual. Esse olhar ampliado ajuda não apenas a interpretar o passado, mas a colocar o presente na devida perspectiva histórica.

A mais, eu gostei da lembrança, por Maria Conceição Tavares, de Darcy Ribeiro. Em outra entrevista, ela já havia dito que ele tinha o ‘otimismo da vontade’ e também o ‘otimismo da razão’ que se expressava na certeza de que o destino do povo brasileiro era “construir uma democracia multirracial nos trópicos”. Senti saudades desse mineiro visionário. Como ele, falta na política atual quem enxergue o futuro com intensidade, vontade e razão.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS  em 30/10/2015]

Nenhum comentário: