27 de ago de 2015

'Cidade Aberta'

Pitanga e jabuticaba

A ampla maioria das administrações municipais segue um modelo que eu chamaria de provedor. A tarefa que lhe é posta resume-se a prover serviços demandados pela população. Serviços de água, esgoto, saúde, pavimentação, educação e por aí afora. Todas as administrações sete-lagoanas, nos últimos anos, com maior ou menor sucesso, trilharam esse caminho.

É um modelo necessário, mas insuficiente. Ele deixa de lado pelo menos dois aspectos próprios da gestão pública; o primeiro deles, o planejamento de longo prazo. Se a cidade cresce de forma ordenada, inclusiva, sustentável, ou não, isso não entra no seu radar.

O outro aspecto refere-se à negociação de novos comportamentos sociais. Desafios emergentes nas cidades de hoje, como violência urbana, proliferação de dengue, difusão do uso de crack, dificuldade de mobilidade, consumo excessivo de bens sociais como a água, pouco se movem com mera provisão de serviços. Eles exigem a indução de novas práticas que esse modelo de administração desconhece.

No Brasil, muitos analistas têm apontado o prefeito Fernando Haddad, de São Paulo, como um dos poucos capazes de assumir essa visão, digamos, moderna de administração. Tanto pela qualidade do debate travado em torno do seu Plano Diretor quanto por suas intervenções no campo da mobilidade. No entanto, paradoxalmente, sua reputação entre os paulistanos é tremendamente ruim. Como candidato à reeleição, em 2016, ao invés de favorito, por ora, ele amarga um distante quarto lugar, atrás de nomes risíveis como Russomanno e Datena.

Sobre essa escolha entre haddads, russomannos e datenas, o que se passa em São Paulo leva a uma reflexão para além de São Paulo, incluindo Sete Lagoas: até que ponto as pessoas sonham com boa qualidade de vida urbana, com cidades equilibradas e justas, mas, na prática, temem mudanças que possam lhe afetar e, na urna, de forma conservadora, resignam-se a mais do mesmo?

Assim como se as pessoas quisessem jabuticaba, mas insistissem em plantar pé de pitanga. E,  curiosamente, aguassem seu pé de pitanga contando maravilhas sobre o gosto da jabuticaba. De uma jabuticaba que nunca virá. Nem lá nem cá!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicada no jornal SETE DIAS em 28/08/2015]

Um comentário:

Jorge disse...

Amigo Flávio, vivi e trabalhei anos em São Paulo. A urbanização acelerou mecanicamente. Mas a mentalidade conservadora e egoísta, própria do SISTEMA, mudou nada.
Em Sete Lagoas, mutatis mutandis, experimento algo semelhante. A cidade nunca teve um prefeito. Teve dominadores, mandados pela duzia de famílias hegemônicas
Para ter um prefeito tem que sair da população. A comunidade entende das necessidades básicas para sobreviver e progredir. Se projetar fosse básica para as cidades do planeta , esse jamais seria o caos que hoje vivemos todos. São Paulo e Sete Lagoas imploram por pessoa popular, honesta, entregada ao bem comum, como Raimundo Gonçalves, Laerte, etc. Sei que estou sonhando, mas os sonhos se tornam realidade ao contato com a vida.