15 de ago de 2015

'Cidade Aberta'

Todos os gatos são pardos

A crise é política! Essa afirmação ecoou nesse início ameaçador de agosto. Filha legítima da crise na economia com a crise ética da Lava jato, ela traiu sua origem para se entregar à paixão do poder pelo poder. Inversamente, é ela, agora, que agrava a crise econômica e apropria-se como quer do escândalo de corrupção.

O nome em evidência é o de Eduardo Cunha. Um incendiário útil para quem deseja uma crise sem fim. Com ele e suas pautas-bomba, uma Dilma e um PT imobilizados ficam ainda mais acuados. Com ele, uma oposição incapaz de oferecer ao país uma alternativa contradiz-se e divide-se em função do melhor cenário para a voracidade de cada um. Num mesmo partido, Aécio, messiânico, quer a queda da presidente e do vice para disputar uma eleição inexistente; Serra quer a queda apenas da presidente para se aliar ao vice; e Alckmin não quer a queda de ninguém para viabilizar-se para 2018. Saídas golpistas para uma crise manobrada, em que o PMDB reina. Além de Cunha, o desestabilizador, Temer, o fiador, e Renan, o elemento estabilizador. Ver Renan Calheiros, o nome mais execrado nas jornadas de 2013, alçado a protagonista desse imbróglio dimensiona a profundidade do pântano em que estamos.

A crise é política e seus efeitos vão consumir anos futuros.

Sobre a crise econômica, menos mal! Com uma trégua política, hoje, as especulações apontam uma inflexão favorável já em 2016 ou 2017. Ainda que o retorno aos nossos melhores momentos vá consumir uma década.

Já sobre a crise de identidade nacional, tanto pior! Aos nossos olhos e aos do mundo, enterramos a boa fama de cordiais e, ao invés de avançamos para sermos vistos como um povo lúcido e combativo, retroagimos para nos tornarmos um povo cheio de ódio, incapaz de conviver com a diferença, classista, racista, homofóbico, sectário na fé e xenófobo. Curar essa doença, aí sim, será tarefa para uma eternidade.

Nesse ambiente contaminado, quando as pessoas saem às ruas para se manifestar, como no próximo domingo, é impossível reconhecer, em meio a tantos golpistas oportunistas e a tantos que querem apenas destilar o seu ódio, alguém que carregue no peito uma indignação genuína. Em agosto, todos os gatos são pardos!

[Artigo publicado na coluna Cidade Aberta no jornal SETE DIAS em 14/08/2015]

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