10 de ago de 2015

'Cidade Aberta'

A degradação do espaço público

A gente vai se acostumando tanto com a degradação do espaço público que perde de vista o seu potencial em oferecer aos cidadãos possibilidades de uso mais instigantes e de convívio mais dinâmicas e em criar ambiências mais ricas e de maior qualidade estética pra cidade.


Quem transita pela Monsenhor Messias, por exemplo, em meio a tanta poluição e desordem, dificilmente recordará a mesma rua, décadas atrás, e pouco provavelmente vislumbrará o primor e o simbolismo de sua arquitetura escondidos por detrás de placas de sinalização tão grandes e de tanto mau gosto.

Uma prova dessa força inovadora do espaço urbano está na pequena reforma recém-executada pela Prefeitura na Praça Barão do Rio Branco. Não por iniciativa própria, mas em cumprimento a ordem do Ministério Público, a Prefeitura apenas retirou o estacionamento de veículos que ocupava quase todo o seu perímetro, restituindo-lhe a função original. No entanto, tão pouco foi o suficiente para que, surpreendentemente, não apenas a praça se despoluísse e ganhasse uma amplitude há muito perdida como, adicionalmente, que ela conferisse ares novos a todo o seu entorno.

Embora a Prefeitura tenha posto faixas anunciando uma obra de revitalização urbana, de revitalização mesmo pouco se viu: a pavimentação irregular e os degraus da calçada continuaram comprometendo a acessibilidade e a geometria dos caminhos e canteiros, inteiramente anacrônica, com bancos isolados, permaneceu ignorando os usuários e inviabilizando formas de uso mais criativas. Ainda assim, a simples retirada dos carros foi tremendamente bem-vinda!

O fato é que a degradação do espaço público, aquele que mais marca a cidade como patrimônio coletivo, degradou também, ao longo dos anos, a nossa capacidade de discernir o bom do ruim e nos obrigou a enxergar beleza até mesmo onde ela não mais existe. Ainda assim, posso estar errado, mas guardo o receio de que, um dia, se um só espaço - a Praça da Prefeitura que seja, a Monsenhor Messias talvez - vier a ser revitalizado de verdade, a ponto de superar a nossa expectativa rebaixada, no ato, a gente há de recuperar o bom senso e o gosto por uma cidade melhor.


[Artigo da coluna Cidade Aberta publicada no jornal SETE DIAS em 07/08/2015]

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