23 de jul de 2015

'Cidade Aberta'

O ovo e a galinha

O uso do carro particular tornou-se um costume tão arraigado, entre nós, que quem o utiliza não vê futuro sem ele. Pode-se viajar ao exterior, apaixonar-se pelos sistemas de transporte de lá, que, quando se retorna, aqui, não se desapega do próprio carro, de jeito nenhum. Como no caso do ovo e da galinha: a adoção espontânea pelo cidadão de novas práticas de locomoção é que pressionará a melhoria do sistema público ou a melhoria do sistema é que estimulará as pessoas a deixarem o carro na garagem?

Há pouco tempo, creio que ninguém imaginava que desgastes no trânsito se tornariam comuns em Sete Lagoas, tão cedo. O sistema viário da cidade nunca favoreceu uma boa circulação, mas  não era um problema. Pouco a pouco, virou esse caos e, pelo jeito, o colapso vem aí. A demora para ir e vir em algumas vias, as dificuldades para se estacionar no centro; enfim, esse estresse cotidiano levará as pessoas a pensarem em outras formas de deslocamento?

Nesta semana, ouvi um comentário de André Trigueiro, na CBN, de que economistas estão pondo preço no prejuízo que motoristas de carros geram para pedestres, em emissão de CO2. Ou seja, além de custos de produção e tributários, a ideia deles é que o preço do combustível tenha um custo ambiental. Essa elevação de preço, o risco de multas, os pedágios; enfim, o ‘impacto no bolso’ será um fator de estímulo a novas práticas?

Conheço pessoas, aqui em Sete Lagoas, que, praticamente, trocaram o automóvel pela bicicleta. Conheço outras que, todo dia, vão de casa ao trabalho a pé, tranquilamente. Mas esses cidadãos mudaram seus estilos de vida por razões de consciência pessoal; um empurrão do poder público não ampliaria esse grupo? Os ciclistas, por exemplo, são ciclistas apesar dos riscos: não é hora de retomar a ideia das ciclovias pra valer, com um sistema protegido? Os pedestres são pedestres apesar das calçadas: não passou da hora de tomar uma atitude para termos calçadas acessíveis?

A propósito, também não é hora de incorporarmos no nosso transporte coletivo inovações para torná-lo mais atraente? Em BH, os ônibus do BRT têm ar condicionado; em SP, novos ônibus vêm com wi-fi grátis. Não merecemos ‘estímulos’ iguais?

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 10/07/2015]

Nenhum comentário: