3 de jun de 2015

'Cidade Aberta'

Pífio!

Pois então. Anda sendo lamentável observar o desfecho de toda a indignação que explodiu no país, desde as jornadas de junho de 2013. De qualquer lado que cada um se colocou nesse jogo, o resultado está sendo o mesmo: pífio! Não interessa se você foi para as ruas e chamou o outro de coxinha ou petralha: pífio! Não interessa se você gritou para o seu amigo, agora desafeto político, - vai pra Cuba! ou – vai pra Miami!: pífio! Não interessa a intensidade de ódio, a força do panelaço, o grau de intolerância: pífio! Toda energia foi canalizada para um pragmatismo infinito. A reforma política que poderia ser um canal de escoamento de todas as insatisfações desaguou no mar da mediocridade. Serviu apenas, com manobras bizarras, para legitimar o que era para ser mudado. Dinheiro de empresas continuará irrigando o sistema político e nós continuaremos brigando pra saber que tanto de boa fé soma uma boa corrupção. Ao transformarmos indignação em ódio e não em projetos, em projeto de país, em projeto de cidade, rifamos o futuro. O ódio flertou com o passado. Do fundo do baú, os projetos que emergiram são os piores possíveis. De novo: toda energia foi canalizada para um pragmatismo infinito. As nossas câmaras de vereadores andam aprovando coisas de arrepiar. A de Sete Lagoas, inclusive. Por aqui, ninguém, ou quase ninguém, parece ter a menor ideia da cidade aonde queremos chegar. Essa cidade não importa; importa o jogo de conveniências; o aqui e agora; nem um palmo à frente do nariz. Tudo foi reduzido a banalidades. Projetos urbanos capazes de mudar a cidade da água pro vinho ou do vinho pra água, que antes eram debatidos, remodelados, ajustados ao futuro, agora, indiferentemente, são aprovados assim, sem mais desassossegos. Interessam os anúncios de prosperidade, ainda que fictícios: teremos isso, teremos aquilo, mesmo que isso mais aquilo não conforme uma cidade melhor. O mundo político anda imitando a caricatura mais debochada que fazem dele. Há um esgotamento de ideias. Há um esgotamento de projetos. Como uma epidemia. Tudo isso faz com que uma velha frase soe, então, definitiva, como um apelo: “basta de realidades, queremos promessas!”

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 03/06/2015]

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