27 de jun de 2015

'Cidade Aberta'

Vale tudo

Creio que há um razoável consenso de que o aumento da violência urbana, nas suas formas mais graves, está diretamente ligado a certa licenciosidade no trato com infrações menores, inclusive as de trânsito. Por essa lógica, ambientes onde se difunde uma maior consciência cidadã tendem a ser mais seguros e vice-versa. É esse o argumento que tem justificado políticas de tolerância zero, implantadas mundo afora. Se ele for verdadeiro, a observação do desrespeitoso trânsito nas ruas de Sete Lagoas dá dicas de por que a nossa taxa de criminalidade anda nas alturas.

Já ouvi várias vezes: - prefiro dirigir no caos de São Paulo do que no vale tudo de Sete Lagoas. Por mais larga que a rua seja, por exemplo, a chance de um coletivo, à sua frente, encostar para deixar ou pegar um passageiro é nenhuma. Faixas de pedestres, se os próprios pedestres as ignoram, os motoristas nem as enxergam. Vagas de garagem e faixas de carga e descarga, na área central, são convites para uma parada rápida que dura uma tarde inteira. Se, curiosamente, conversões à esquerda em vias arteriais, por aqui, é um procedimento usual, dar seta é coisa rara. Placas ‘pare’: pra que servem? A transgressão e a descortesia imperam!

Se a forma de aprendizado mais efetiva é aquela que mexe no bolso, resta concordar com a ação da Prefeitura de instalar radares pela cidade toda; afinal de contas, as placas de velocidade máxima, as que existem, tornaram-se apenas decorativas. Com esse objetivo, mesmo as multas por estacionamento proibido, do que tantos reclamam, são bem-vindas; ora, com tanto carro, ou há regras ou há regras. As blitz, sobretudo as de lei seca, da mesma maneira, para serem pedagógicas, poderiam até ser mais habituais.

Seja como for, esse não é um problema que podemos, alienadamente, colocar na responsabilidade do poder público por falta de uma ação punitiva e educativa mais ostensiva. É um contrassenso admitir que não temos educação no trânsito porque não estamos sendo educados pra isso. Ao contrário, a nossa obrigação é juntar os fatos: a nossa santa ira e os nossos ingênuos crimes no trânsito fazem parte do mosaico da violência urbana que anda nos apavorando.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 19/06/2015]

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