22 de mai de 2015

'Cidade Aberta'

Calçadas invisíveis

Era começo de noite e eu voltava pra casa, à pé. Afinal, àquela hora, uma pequena caminhada não era mau negócio para aquecer o corpo nesse outono frio. Seguia calado, quando me deparei com um velho amigo, indo na mesma direção. Àquela hora, um bate-papo inesperado e algumas risadas também não eram mau negócio. O centro da cidade estava vazio. Seguimos. Em algum momento, saltamos da calçada para o asfalto. A um quarteirão de minha casa, pela Duque de Caxias, ele, e não eu, foi quem deu pela coisa e comentou: - engraçado, as calçadas sem viv’alma e nós viemos pela rua.

Transpusemos o último quarteirão como dois cineastas malucos carregando câmaras fictícias à altura do chão. Foi a forma que encontramos para entender as razões de nossos pés terem decidido, por conta própria, por onde ir. Numa rua plana, na calçada, um buraco, uma tampa de CEMIG e outra de TELEMIG mal postas, um monte de lixo amontoado para coleta, um degrau de garagem, mais um, mais lixo, outro degrau, um suporte de orelhão sem orelhão, duas placas de estacionamento, mais degraus. Já a pista, um tapete: plana, limpa e desimpedida! Razões óbvias!

Trocamos impressões a partir de nosso documentário virtual: os passeios de hoje são emblemáticos das cidades de hoje! Aqui e alhures. Noventa por cento de todos os eventos cotidianos urbanos se dão neles: os pedestres que circulam, o sujeito que espera o ônibus, o grupo que conversa, alguém que olha a vitrine, o pedinte, o camelô, o casal que namora, o cara que vende cachorro quente. Todos negociam, desconfortavelmente, espaço nas calçadas apertadas, com buracos, postes, sacos de lixos e entulhos de obras. Para as prefeituras, as calçadas são invisíveis. Para as prefeituras, por certo, a inquietude da vida cotidiana é invisível.

Por que as ruas são públicas e as calçadas são privadas? Por que a competência para alisar e pintar asfalto é da Prefeitura  e para cuidar ou não cuidar das calçadas é do particular? Onde está escrito, em letras pétreas, que isso não pode mudar? Por que não podemos ter calçadas uniformes, desimpedidas e alargadas? Até quando a cidade será para carros e carros e não para pessoas, com seus afazeres, sempre, tão comuns; às vezes, tão peculiares?

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 22/05/2015]

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