15 de mai de 2015

'Cidade Aberta'

Tempos graves

No bar, na mesa ao lado, três casais discutem exaltados. Sobre política, claro! Contra o PT, claro! Sem preconceito, são pessoas da tal elite branca, na expressão do insuspeito Cláudio Lembo. Em resumo a conversa é a seguinte: o PT não fez nada para o país; a ascensão de pobres à classe média foi um blefe movido por meia dúzia de bolsas, sem controle; o PT quebrou os ricos; ao invés de esmolas, o governo devia investir no setor produtivo para acabar com a pobreza. Cá entre nós: o nome disso não é política, mas ignorância!

Mesmo pessoas de direita, mas sensatas, fazem análises equilibradas sobre os governos petistas, com seus erros e acertos; a ascensão à classe média não se deu só em razão de bolsas, mas, mais, da política de aumento real do salário mínimo; não há meia dúzia de bolsas; desde 2003, foram unificadas no Bolsa Família; não há descontrole: organismos internacionais avaliam o BF como o programa de transferência de renda mais focalizado do mundo; há fraudes no BF dos pobres como há no Imposto de Renda da classe média; o PT não quebrou os ricos, o fluxo de recursos para os 5% mais ricos continuou sendo maior do que para os 50% mais pobres; apenas investir no crescimento do país não acaba com a pobreza: de Vargas aos militares, o Brasil deixou de ser um país agrário, tornou-se uma das dez maiores economias mundiais e, paradoxalmente, também, um dos países mais desiguais do planeta. O antipetismo não muda os fatos.

Tempos graves: do antipetismo ao anti-esquerdismo desata-se uma avalanche conservadora inimaginável. O novo Congresso prova isso: em três meses, emplacou uma agenda de retrocesso assustadora: relativização do conceito de trabalho escravo, redução da maioridade penal, fim do estatuto do desarmamento e por aí afora. Nomes da oposição disputam espaço, nas fotos, ao lado do presidente da Casa, um homem, até ontem, pouco recomendado. O antipetismo justifica os meios.

O problema não é opor-se ao PT. “Pão ou pães é questão de opiniães”. O problema é a interdição de ideias que nos movam pra frente. Aqui em Sete Lagoas, na maior facilidade, andam sendo aprovados projetos com impactos urbanos gravíssimos; as pessoas batem panelas, mas não veem nada e não dizem nada! O antipetismo cega!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 08/05/2015 - com revisão]

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