4 de abr de 2015

'Cidade Aberta'

Boa Páscoa!

O Natal costuma ser a festa cristã mais pomposa, com seus enfeites, suas ceias e seus presentes excessivos. Ainda assim, leigo que sou, eu prefiro a Páscoa. Acho uma comemoração mais singela e, no entanto, mais cheia de sentidos.

Não é difícil acreditar na motivação natalina: o nascimento de um certo Jesus. Isso não exige nenhum esforço de fé. Mesmo não cristãos que veem nele apenas um profeta creem nisso. Mesmo céticos que negam a sua divindade podem crer nisso. Já a Páscoa, a convicção de que esse Cristo doou a vida pela humanidade e completou essa missão libertadora com a sua ressurreição exige não apenas fé, mas fidelidade a uma compreensão mais nobre de vida.

É bom lembrar que, antes mesmo de Cristo, o Pessach judeu comemorava a libertação dos hebreus do Egito. Esse é mais um motivo para associar a Páscoa à ideia de uma experiência, necessariamente,  comunitária e a de um gesto de entrega de vida por essa comunidade, movido tão somente por um desejo atávico de liberdade. Isso é bonito, mas não combina com os dias atuais.

Eu acho as pessoas de hoje tão boas quanto as do passado, tão capazes, como sempre, de realizar atos genuínos de solidariedade, mas acho que a sociedade contemporânea não mais estimula ninguém a isso. Não sei se digo bobagem, mas, antes, o ideal de família parecia se realizar na disposição para a coletividade; hoje,  ao contrário, se realiza em si mesma. Antes, a cidade era o palco das realizações; hoje, esse palco é a casa, a casa sem alpendre, cada vez mais fechada entre muros e cheia de parafernálias pós-modernas.

Pensando na cidade que está aí, o sentido da Páscoa parece inútil. Parece impossível a superação da insegurança das ruas. Parece improvável a transposição dos limites fechados dos nossos guetos urbanos de individualismo na direção de uma cidade aberta. Parece incerta a ruptura com as tão naturalizadas desigualdades em busca de uma cidade justa.

Eu sei: tudo isso parece - e é! - absolutamente utópico. Mas para além dos chocolates inflacionados, o sentido da Páscoa, essa mistura de doação, comunidade e liberdade, não é uma enorme, ainda que belíssima, utopia?

Amigo leitor, que o espírito solidário da Páscoa nos inspire e nos encoraje!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 02/04/2015]

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