22 de mar de 2015

'Cidade Aberta'

E daí?!

Em 2013, por mais que eu tenha tentado entender os novos modos dos protestos de junho - a organização horizontal, a liderança invisível e a pauta difusa, não consegui responder a uma dúvida central: e daí; tanta energia mobilizadora desaguará exatamente em quê? Em menos de dois anos, todos os temas identificáveis daquela pauta difusa – a tarifa zero e a melhoria dos serviços públicos, por exemplo – desapareceram sem que tenham tido qualquer avanço. O saldo contabilizável das manifestações ficou nelas mesmas: o aprendizado de retomar as ruas, a socialização de um sentimento genérico de insatisfação e a constatação de que multidões intimidam governos.

Os protestos deste março de 2015 beberam na fonte de 2013, mas, no meio do caminho, foram geneticamente modificados pelo processo eleitoral. Guardam semelhanças e diferenças. Segundo o Datafolha, ambos são movimentos impulsionados pela classe média; entretanto, se há dois anos, eram apartidários, hoje, conforme o mesmo Datafolha, 8 de cada 10 manifestantes, em SP, no último dia 15, eram eleitores da oposição e, embora metade deles tenha dito que foi às ruas por causa da corrupção, a ostensiva manifestação ForaDilma e ForaPT revelaram um indisfarçável viés partidário.

À parte o lado histérico, racista e golpista creditado a uma minoria, não se discute a legitimidade de um movimento de classe média oposicionista nem o seu poder de influenciar a opinião pública nacional. Mas nem por isso se supera a questão central: e daí; tanta energia mobilizadora desaguará exatamente em quê?

Contraditoriamente, o movimento empunha bandeiras, mas repudia duramente qualquer resposta objetiva a elas. Um endurecimento da lei anticorrupção? Não, Dilma não tem legitimidade pra isso! Uma reforma política? Não, o Congresso não tem legitimidade pra isso! Resta bater-panelas!

Não imagino um desfecho possível para um processo que abre frentes, mas fecha saídas. Apenas faço perguntas. Movido pelo ódio, tudo se resumirá a “sangrar o governo”, como verbalizou a oposição, sangrando junto o país? Tudo desaparecerá, inutilmente, como em 2013? Ou há uma chance remota de se canalizar essa energia para aprimorar as nossas jovens instituições democráticas?

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 20/03/2015]

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