26 de fev de 2015

'Cidade Aberta'

As tipuanas de Porto Alegre

O ano de 1975 mal havia começado. O ditador de plantão era o Geisel. Mesmo para um garoto de 15 anos, o clima era pesado. Talvez não fosse se não tivéssemos nos metido todos no JUSLAGOS, o grupo de jovens da Paróquia de Santo Antônio. Alguém precisa escrever um livro sobre o JUSLAGOS. O JUSLAGOS nos transformou em comunistas. O certo era o ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’; o resto, fosse o que fosse, era tudo comunista. Mesmo as mais singelas preocupações sociais de uma juventude cristã de um país pobre orientada por um padre português conservador de nome Antônio eram comunistas. Dos JUSLAGOS fomos fazer CJC, os cursos de juventude cristã promovidos pelos padres jesuítas de BH e elevamos o nosso nível de rebeldia. O nosso território livre era a casa de D. Dochinha. Embora quase todos os filhos de D. Dochinha já tivessem se mudado daqui, a casa continuava cheia. Eu não sei o que se passava naquela casa, mas havia uma inquietação infinita ali. Carlinhos, o único tímido dos Dayrell, havia ido para Porto Alegre estudar. Era fevereiro, quando chegou a notícia: Carlinhos subiu numa árvore! Meu Deus, o que Carlinhos aprontou?! Não, não existia esse papo de meio ambiente. A única pessoa que eu conhecia que se preocupava com isso era Carlinhos. Na manhã do dia 25, ele ia para a faculdade, quando viu tipuanas serem cortadas, em frente à Faculdade de Direito, para construção de um viaduto. Carlinhos foi o primeiro a subir em uma delas; dois outros colegas o seguiram. Em plena ditadura, aquilo não era um ato ambiental; era um ato político. Sob repressão policial, à noite, Carlinhos foi parar no DOPS. DOPS era uma sigla impronunciável, naqueles tempos. Mas as tipuanas não foram cortadas. Acho que o gesto de Carlinhos foi a contribuição mais libertária que Sete Lagoas já ofereceu ao país. Eu gostaria de conhecer essas tipuanas. Eu sinto uma certa intimidade com elas. Elas, eu e a minha geração, há exatos 40 anos, ficamos endividados com Carlinhos. Carlinhos não faz ideia, naqueles tempos tão obscuros, do que um gesto como aquele seu causaria numa meninada de 15 anos. Com aquele gesto, não foram apenas as tipuanas de Porto Alegre que ficaram de pé; os nossos sonhos também!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicada no jornal SETE DIAS em 27/02/2015]

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