23 de fev de 2015

'Cidade Aberta'

Piketty

Na segunda, antes do Carnaval, assisti à entrevista com o economista francês Thomas Piketty, no programa Roda Viva, na TV Cultura. Confesso que liguei a TV com interesse e desliguei com desânimo. Não por culpa do entrevistado, mas da bancada de entrevistadores, pela baixa qualidade do diálogo travado.

Não, Piketty não é inatacável. O seu livro ‘O Capital no Século XXI’ tem merecido críticas contundentes, à esquerda e à direita, mundo afora. Mas, igualmente, tem sido respeitado pela extensa pesquisa histórica que o sustenta e pelos temas que traz à baila. Grosso modo, ele retoma a tese de que o capitalismo, apenas pelas forças de mercado, não leva a um mundo igualitário; ou seja, que a desigualdade é inerente a ele. Piketty não faz um crítica ideológica ou moral ao capitalismo, mas funcional: como o rendimento do capital é muitas vezes maior do que o crescimento da economia, a desigualdade gerada, no limite, põe em risco o próprio crescimento. Esse é o ponto-chave. Em seguida, ele defende ideias muito sensíveis como a falácia da meritocracia, a regulação estatal da economia e o imposto progressivo.

O confronto dessas teses com a nossa realidade sugeriam uma entrevista instigante. Afinal de contas, a desigualdade brasileira é uma das maiores do mundo, a nossa taxação sobre herança e patrimônio, uma das menores e, apesar de todas as bolsas-famílias, somos um país que ainda contribui mais com a renda dos 5% mais ricos do que com a dos 50% da base da pirâmide. Mas não foi nada disso o que se viu: os entrevistadores preferiram confrontar a visão de longo prazo de Piketty com questiúnculas conjunturais; ao invés de discutir o Brasil, apenas fustigar o governo; e, especialmente o economista André Lara Resende, contrapor-lhe com um dogmatismo neoliberal em desuso. Ao francês, restou se exceder em elegância e firmeza intelectual.

O meu desânimo não se encerra com o programa, mas persiste na seguinte dúvida: esse posicionamento imediatista, paroquial, tendencioso, reacionário e incapaz de pensar o país numa perspectiva civilizatória é o que marca o formador de opinião brasileiro, especialmente da imprensa, e influencia o pensamento médio do cidadão? Então, estamos perdidos!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 20/02/2015]

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