8 de fev de 2015

'Cidade Aberta'

Coluna da utopia

Por uns dez anos, meu pai, João Luiz Sampaio de Castro, manteve, neste SETE DIAS, uma coluna intitulada Coluna da Utopia. Passados dez anos, ao rememorar as suas ideias, não exatamente como ideias pessoais, mas como ideias comuns a um conjunto de pensadores de sua geração, é curioso constatar como o conceito de utopia acanhou-se.

Eu concordo com a tese de que o Brasil pós-ditadura viveu um ciclo virtuoso, ainda que ele possa estar se esgotando. Passamos por uma transição democrática; outra, econômica e mais uma, social raríssimas em nossa história republicana. No entanto, paradoxalmente, ao invés dessa evolução nos aproximar daquelas utopias, no mínimo das, digamos, razoavelmente benquistas; não, ela nos distanciou.

Há uma década, a esquerda defendia o socialismo, com adjetivos como socialismo democrático, mas defendia; hoje, qual o quê! A esquerda perdeu reputação e o socialismo virou um pecado. Incrivelmente, tornou-se mais usual defender aquilo que é e sempre será a visão política mais deletéria, a volta de uma ortodoxia capitalista militar, do que qualquer forma de socialismo.

Há uma década, era possível, mais por uma inspiração cristã do que por qualquer outra ideologia, crer numa perspectiva igualitária da sociedade; hoje, qual o quê! É mais fácil, nas redes sociais, ver alguém reacender o preconceito mais repugnante da escravagista alma brasileira, contra gays, nordestinos e pobres, do que qualquer forma de igualdade.

Há um consenso de que estamos imersos numa crise de valores; mas, assustadoramente, ao invés dessa crise nos remeter a utopias mais radicais, de um mundo radicalmente mais justo, ela parece nos remeter a uma distopia, a um mundo dominado por um asfixiante pragmatismo.

Assustadoramente, a justa indignação contra a corrupção, por exemplo, passou a justificar as mais obscenas – e por obscenas, então, corruptas – ideias. Quanta miséria!

Francamente: eu ando querendo recuperar utopias; não utopias acanhadas, mas utopias, as mais absurdamente libertárias.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicada no jornal SETE DIAS em 06/02/2015]

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