31 de jan de 2015

'Cidade Aberta'

Os tempos são outros

Nós mudamos para a Barão do Rio Branco em 1965. A Plácido de Castro tinha 3 casas do lado direito, 6 do lado esquerdo, uma oficina de bicicleta e outra de carro; o resto era lote vago. O lote entre as casas do lado direito foi um temível campo de guerra; em tempos de paz, virou um glorioso campo de futebol. Da 3ª casa, cá embaixo, até a Monsenhor Messias, lá em cima, o ininterrupto passeio em declive que ladeava o muro do quintal de D. Chiquinha Avelar era a mais desafiadora pista de carrinhos de rolimã de todo o planeta. Então, podia-se brincar no meio da rua. Na Professor Herculino França, para onde mudamos anos depois, nem se fala: era uma rua sem saída, ainda não interligada com aquela que viria a ser a mais desorganizada rota de coletivos de todo o mundo, a Rua Professor Fernandino Júnior. É difícil convencer quem não é daqueles tempos que a Praça da Prefeitura  era uma bucólica e bem cuidada praça de interior, dessas em que a meninada podia cansar de brincar. Mas era!

É verdade, os tempos são outros. Mas isso não justifica o que fizeram e andam fazendo com a praça. Não bastasse o traçado incompreensível, o piso impróprio de ardósia – aliás, piso, vírgula, todo destruído – e o paisagismo desleixado; absurdamente, tornaram-na o maior estacionamento ilegal de carros em frente a uma prefeitura e sob o nariz das autoridades de todo o universo!

É verdade, os tempos são outros. Não há mais aquela meninada no centro, mas há muitos idosos confinados em suas casas, muitos funcionários públicos fazendo a hora do almoço e aquela turma da Fazenda Velha, do Barreiro, que sofre debaixo de sol e chuva, naquele ponto de ônibus que tem lá. Ah!, e tem os namorados, à noite. Essa gente toda bem que merecia uma praça bacana pra usar e abusar!

Não, não é questão de saudosismo. Eu não acho que devemos voltar à velha pracinha. Na verdade, eu acho que uma praça nova ali, ampliada, redesenhada, com um ambiente interno de convívio pode ser mais útil do que a praça da minha memória. Apenas num ponto penso que ela deve recuperar o passado: por estar bem em frente à Prefeitura, ela bem que poderia voltar a ser a mais simbólica, a mais cívica praça de toda a Sete Lagoas!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 30/01/2015]

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