31 de jan de 2015

'Cidade Aberta'

Afinal, qual a alternativa?

Será que com essa surra que estamos tomando, há mais de um ano, desse clima hostil, dessa estiagem sem fim, desse calor desértico, dessa água minguada os nossos governantes adotarão, enfim, medidas sensatas? Acho improvável!

Em entrevista à FSP, nesta segunda, a pesquisadora da Universidade de Stanford e diretora do programa Water in the West, que estuda soluções para abastecimento de água na Califórnia, Newsha Ajami, criticou todas as medidas que estão sendo tomadas pelo governo de São Paulo para solução de seu colapso hídrico. Ela evidencia que o governo continua agindo na lógica antiga, baseada em água em abundância. De forma similar a outra entrevista com a urbanista Marussia Whately, no mesmo jornal, em dezembro, Ajami indica que é preciso mudar o paradigma: racionalização de consumo, redução de perdas do sistema, melhor gerenciamento, recuperação de mananciais e – eu acrescentaria – alterações no nosso padrão agressivo de urbanização, com aumento da permeabilidade do solo urbano e arborização. O governo paulista não faz nada disso. Nesse assunto, a maioria dos governantes, Brasil afora, também não faz.

A propósito, com relação a outros temas atualíssimos, como o da mobilidade urbana, a dificuldade de nossos governantes em mudar a lógica na sua compreensão é a mesma. No caso, superado o medo imposto pelas manifestações de junho de 2013, as passagens voltaram a subir, como antes, sem que se tenha posto em debate propostas de novas condutas, mais inclusivas, para além das convencionais. Só se pensa em obras e obras. A aversão a pensar em novos modos de vida urbana é total!

Aqui e alhures, o modelo usual de governança de cidades é conservador. Conservador e convencional. Convencional e anacrônico.

A nossa classe política parece incapaz de compreender os tempos atuais. Prefeitos, vereadores, deputados parecem mais interessados na sua autopreservação, em seus acordos miúdos, em suas barganhas bizarras do que em lidar, corajosamente, com as novas agendas sociais.

A questão é que, como no caso desse clima adverso, enfrentar desafios, mudar a ótica, mudar a lógica, mudar o curso da ação tornou-se uma obrigação. Afinal, qual a alternativa?

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicada no jornal SETE DIAS em 23/01/2015]

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