16 de jan de 2015

'Cidade Aberta'

Salsichas, leis e acordos

Rumores, ao longo da semana, apostam na entrada do PT na administração municipal, a convite do prefeito, a troco de sei lá quantos cargos. Simples: como o PT ganhou as eleições para os governos federal e estadual nada como tentar construir pontes de aproximação. Simples, desde que se concorde que a política requer oportunismo e dispensa coerência. De parte a parte.

É bom lembrar que, em 2012, a candidatura do então deputado Márcio Reinaldo foi lançada, pessoalmente, aqui, pelo Danilo de Castro, braço direito de Aécio Neves. Ela integrava a estratégia do PSDB de garantir boa votação nas 50 maiores cidades mineiras para dar sustentação ao projeto presidencial do ex-governador tucano. Ex-aliado de Dilma, Márcio teria adotado o antipetismo por mágoa, por não ter sido escolhido ministro, o que achava que estava no papo; mas não estava.

Nesses dois anos, o prefeito seguiu a risca a cartilha conservadora: ‘obrismo’ sem planejamento, endividamento crescente, desprezo pelo funcionalismo e, sobretudo, cerceamento da autonomia de conselhos e sindicatos e aversão à participação popular, bandeiras que já foram caras ao PT.

Na Câmara, desdenhou até mesmo o estilo de oposição construtiva exercida pelos vereadores petistas, especialmente o Dalton Andrade. Por exemplo, em projetos como os da lei delegada e do IPTU rejeitou qualquer contribuição deles e foi para o tudo ou nada.

Tantas divergências eram apenas jogo de cena?

Não quero me ater ao PT, mas esses fatos tornam oportuna uma questão: acordos entre forças políticas antagônicas é boa coisa? O cidadão comum, que elege seu representante com base em ideias nas quais acredita, aceita bem ver essas ideias, depois, de mãos dadas, justamente com aquelas outras que sempre repudiou?

Mais do que de capitulação, sujeição e adesismo de ideias e princípios, Sete Lagoas não está precisando, bem ao contrário, de ampliar o debate sobre diferentes concepções quanto ao seu presente e ao seu futuro?

Churchill teria dito coisa parecida, mas creditam a Bismarck a frase que diz que “quanto menos as pessoas soubessem como se fazem salsichas e leis, melhor dormiriam à noite”. Eu acrescentaria: salsinhas, leis e acordos políticos.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicada no jornal SETE DIAS em 16/01/2015]

Um comentário:

FERNANDES disse...

COMO SEMPRE O FLÁVIO DE CASTRO NOS BRINDA COM SUA PERSPICÁCIA POLÍTICA. DE LONGE, DE BINÓCULO NOS MOSTRA O QUE PODE ACONTECER. O POVO TEM MEMÓRIA CURTA E ESQUECE FACILMENTE. JÁ EU CREIO QUE O EXERCÍCIO DE PENSAR É MUITO TRABALHOSO PARA MUITOS. DESEJO QUE NÃO APAREÇAM MERCENÁRIOS DE PLANTÃO PARA ATENDER AO CANTO DAS SEREIAS. OXALÁ!