29 de dez de 2014

'Cidade Aberta'

O ano em que pegamos em armas

Algumas pessoas lembram-se com uma facilidade incrível o ano exato daquela viagem no verão ou desse ou daquele caso. Sou péssimo nisso: meu sistema organizador de memória mistura tudo numa só pasta de todos os anos passados. Nem cálculos complexos me fazem lembrar o ano de coisas óbvias. Ainda assim, todo dezembro, tento reunir tudo num arquivo separado com ano e senha. Como agora: ‘2014, o ano em que pegamos em armas’.

Antes dos primeiros fogos do réveillon, alguém gritou #NãoVaiTerCopa. E foi o que bastou para instalar a cizânia. Do outro lado, veio o grito de guerra #ACopadasCopas. No primeiro semestre, a TV insistiu em nos mostrar o Brasil que faria a primeira Copa em um canteiro de obras. Mas quando a legião de amigos estrangeiros desembarcou, de repente, fez-se um armistício e a bola rolou que foi uma beleza. E que Copa! Até o fim de linha da seleção canarinha foi histórico. Há gente boa e séria que jura que aquele 7 a 1 foi a coisa mais importante de 2014 para a identidade nacional. Mais do que as eleições que viriam depois.

Sim: a guerra das guerras! Se o paiol estava cheio de pólvora, a queda do avião do PSB meteu fogo. Santa misericórdia! Desde então, todo mundo passou a dormir com um olho aberto. As redes sociais viraram um campo de batalha. Como naqueles filmes medievais: guerreiros indo de cá, guerreiros vindo de lá e quando uns passam pelos outros não sobra ninguém em pé. Estatisticamente, foi a maior taxa de perdas de amigos virtuais e não virtuais da história. E pior: quando as eleições acabaram, não acabaram: guerra sem fim!

Mas é curioso: olho pra trás e não acho nada ruim. Veja: até quem odiava política saiu da sombra, falar do Brasil virou moda e a quebra da nossa tradicional cordialidade mostrou que, genuinamente, há diferenças entre nós. Isso não é bom?

Bom, mas precisamos aproveitar a oportunidade para dar um passo à frente.  Preservando as diferenças, toda a ira que motivou tantas acusações mútuas precisa ser convertida, sem retrocessos, em um olhar para o futuro. Num momento tão delicado, afinal, qual o melhor caminho?

Espero que o espírito natalino nos ajude a dar esse passo, que a luz da serenidade nos leve a pisar em 2015 com garra, mas em paz!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 24/12/2014]

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