12 de dez de 2014

'Cidade Aberta'

Estou errado?

Em entrevista à Folha de SP, na última segunda, a urbanista Marussia Whately disse coisas bem interessantes sobre gestão de águas. Embora ela se referisse à crise hídrica de São Paulo, suas opiniões me pareceram aplicáveis a várias situações, inclusive à nossa.

“Vamos continuar a insistir no modelo de gestão da oferta?”: essa pergunta resume a sua crítica às propostas do governo paulista. Eu estenderia para outros governos, no plural. Afinal, diante da escassez de água, a tendência geral não é sempre essa de se explorar, com obras e obras, ao limite, os recursos hídricos para aumento da oferta? Aqui em Sete Lagoas, a atuação pública não vai nessa direção com a insistência no aprofundamento e perfuração de poços artesianos para extração de águas subterrâneas como se elas fossem inesgotáveis?

Basicamente, Whately valoriza duas outras variáveis que são, usualmente, ignoradas e que nos servem de alertas: a recuperação de mananciais e a gestão da demanda.

Na primeira ponta, ela relembra que a quantidade de água que rios e riachos mandam para represas [no caso, as do sistema Cantareira] depende do “quão preservado é o seu entorno”. Como boa prática governamental, ela aponta o modelo de Nova York que “comprou áreas ambientalmente sensíveis e as transformou em parque”. Nessa perspectiva, voltando à nossa cidade, eu confesso que jamais vi qualquer prefeito se preocupar em identificar e preservar as áreas de recarga de aquíferos para garantia da sustentabilidade do sistema; estou errado?

Na outra ponta, sobre gestão de demanda, ela refere-se à redução de perdas. Em SP, diz ela, perdem-se 37% da produção de água por vazamento na rede ou por consumo não pago. Com o histórico gerencial do nosso SAAE não duvido que tenhamos perdas maiores. Ou seja, o volume de água que desperdiçamos pode se aproximar do que se vai captar no Rio das Velhas; estou errado?

Por fim, ao falar da crise atual, ela pôs a culpa em quatro fatores: gestão temerária, ufanismo, eventos climáticos extremos e falta de transparência e diálogo. Aí, sinceramente, achei que ela conhecia Sete Lagoas; e, especialmente na falta de diálogo, que havia se inspirado aqui. Diálogo entre governo e sociedade? O que é isso?

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicada no jornal SETE DIAS em 12/12/2014]

Um comentário:

Margarete Leta disse...

De Castro, li o artigo da urbanista e, embora concorde com tudo que ela disse, chamou-me a atenção o que ela não disse. São Paulo vive mais uma vez, simultaneamente, problemas de escassez e excesso. Enquanto a cidade se afoga, discute a crise de abastecimento de água. Isso, sem dúvida, evidencia a má gestão das águas urbanas. As águas de suprimento e as águas pluviais são tratadas em instâncias distintas como se não fossem elementos complementares de um mesmo ciclo. Como aqui em BH: águas de abastecimento (e de esgotamento) são da alçada da COPASA. Águas pluviais (leia-se, drenagem urbana) são assunto da SUDECAP e que ninguém se intrometa!

Como ensina o incansável geólogo e professor Edézio, o reservatório natural das águas de chuva é a terra. As generosas e abundantes chuvas que caem sobre o território urbano, se não encontram abrigo, voltam velozmente prá sua morada, o mar. Não sem antes deixar um rastro de destruição. Estranhou-me, portanto, a urbanista não falar em mudanças em nosso modelo de urbanização que bloqueia cada centímetro da superfície ao acesso da água aos lençóis freáticos. Isso sem falar nos “avanços tecnológicos” capazes de drenar até o esgotamento as águas que conseguiram aí se abrigar para a obtenção das X vagas de garagem que encantam o consumidor. Sem dúvida, recuperar e preservar as cabeceiras de drenagem é imprescindível mas não suficiente para nos libertar da dependência dos mercadores de água porque não transforma nossa relação com nossas águas.

Ah, na lista dos poluidores, faltou uma importante fonte de poluição nos centros urbanos que podemos atribuir, quase integralmente, aos veículos automotores, a chamada poluição difusa, difícil de neutralizar justamente por sua natureza difusa, constituída basicamente por óleos, graxas, metais pesados etc.

No mais, vocês estão certíssimos! Estive em Sete Lagoas semana passada e, além de, mais uma vez, me arrepiar com o cenário de terra devastada que caracteriza a área da Iveco e da Ambev, soube que essa já abriu dezenas de poços artesianos para produção da bebida nacional! Fazer o quê?
Beijo. Leta