4 de dez de 2014

'Cidade Aberta'

147

Certa vez, assisti a uma palestra do geógrafo Aziz Ab’Saber e sai impressionado. Em minutos, ele narrou a história de Belo Horizonte; não a história de um século, desde Aarão Reis, mas a história de milhões de anos, desde a constituição geológica daquele sítio, as suas transformações, até a organização da sociedade atual. Nessa perspectiva ampliadíssima, Ab’Saber ressaltava características dos belo-horizontinos próprias daquele chão e dava a essa obra gigantesca um sentido civilizatório.

Toda vez que eu subo a Serra de Santa Helena e descortino, aos seus pés, essa formação humana, essa paisagem natural e urbana de que fazemos parte, ocorre-me esse sentido civilizatório profundo que aprendi naquele dia. É inevitável unirmo-nos aos nossos antepassados e nos sentirmos parte de uma obra única, que só poderia ocorrer aqui, aos pés dessa serra, nessa porteira do sertão, sobre essa rocha cárstica, pelas mãos dessa gente, afinal, que somos nós.

Curiosamente, o alargamento temporal dessa noção de cidade não diminui o valor das experiências de cada cidadão, de ontem e de hoje; antes, dá-lhes um nexo. Uma expressão coletiva assim só existe, por certo, por um esforço múltiplo; menos pelo heroísmo de alguns, mais pelo trabalho disciplinado, comunitário, anônimo de uma multidão de sete-lagoanos comuns, desde o primeiro deles.

Por assim dizer, só se pode comemorar os 147 anos de Sete Lagoas pela soma infinita dos anos de trabalho de todos nós, historicamente. Por exemplo, só se soma esse número emblemático porque o jornal SETE DIAS depositou 23 anos de credibilidade e pluralidade de opinião nessa conta; ou porque o curso de Direito do UNIFEMM, mais 40 anos de educação jurídica, ou a própria FEMM, mais 48 de compromisso com o desenvolvimento da região – para ficar apenas em aniversários comemorados, coincidentemente, ao longo desta semana.

Resta lembrar que, nessa lógica ab’saberiana, por certo, do presente abre-se o futuro. Ao brindarmos o aniversário de Sete Lagoas, a nossa geração reafirma, por dever com a história, o compromisso de tocar em frente essa particularíssima civilização sete-lagoana, se possível, mais gentil com esse chão, mais justa uns com os outros.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 28/11/2014]

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