21 de nov de 2014

'Cidade Aberta'

Até vaca está estranhando bezerro

Esse escândalo da Petrobras, em situação normal de temperatura e pressão, já era para ser demolidor. Depois de uma eleição, então, com os ânimos já muito exaltados, ele gerou um clima insustentável. Como se fala: ‘até vaca está estranhando bezerro’. Paradoxalmente, tem gente de quem se esperava algum juízo clamando por golpe e tem gente de quem não se esperava nada pregando serenidade. Nas horas graves é que se sabe quem-é-quem. Gatos escaldados sentem no ar o mesmo cheiro podre pré-64. Discordo: depois de 50 anos, o país é institucionalmente outro. É fato, porém, que, nesse ambiente conflagrado, sobram teorias conspiratórias. Torço para que sejam só teorias e que o país seja capaz de se dedicar, sem um arranhão à Constituição, ao que efetivamente interessa: apurar, julgar e punir! Aí, confesso, tenho dúvidas. Só foram pra frente, nos últimos anos, apurações de denúncias de corrupção que se prestaram, no jogo político, a atingir um lado, um partido. Como no caso óbvio do mensalão do PT. Sequer se criou o mesmo ambiente de indignação contra o seu antecessor, o mensalão tucano. Para além da ira sectária, não estou convencido de que o país deseja, realmente, combater a sua corrupção estrutural, a que envolve o grande capital nacional, as grandes empreiteiras, por exemplo. Nesse caso, é preciso deixar a hipocrisia de lado. A corrupção brasileira não é coisa petista de 12 anos; nem – para dividir a conta com FHC – de 15 anos, conforme depoimento de um dos presos. Todo mundo sabe que ela sempre esteve aí. As mesmas empresas cujos executivos estão, agora, atrás das grades financiaram metade dos novos deputados eleitos e todos os partidos com exceção de um. Da situação e da oposição. Elas bancam o sistema político! Um sistema que adota esse mecanismo legalmente espera exatamente o quê? Quem apura, julga e pune não tem amarras com a política e tem força e disposição para insurgir contra quem paga a conta? Será?! De minha parte, cada vez que vejo as cifras bilionárias desviadas, eu dobro a minha indignação. Mas cuido para não colocar toda essa indignação a serviço de golpistas, num jogo que não me parece nada claro. Ando muito desconfiado. De tudo e de todos.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 21/10/2014]

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