14 de nov de 2014

'Cidade Aberta'

Da casa pra fora

Pela terceira eleição consecutiva, o tema do Bolsa Família foi trazido, de novo, ao centro do debate. Pra mim, há uma explicação simples pra isso: a carência de novas agendas nos leva a ficar patinando sobre o passado. Havia nexo discutir o Bolsa Família há 10 anos; agora, não mais. Esse programa já comprovou a sua eficácia no combate à desigualdade social, à pobreza e à fome. Independente de ideologia, não há um único especialista no assunto que não o prestigie. A política precisa dar um passo à frente.

‘Da porta pra dentro, a vida melhorou; da casa pra fora, não’. Essa frase resume bem a realidade. As políticas sociais da última década, cujo carro chefe foi exatamente o Bolsa Família, elevaram o padrão de vida das famílias pobres brasileiras, ‘da porta pra dentro’, com mais renda, subsídios habitacionais e incentivos ao consumo de bens. ‘Da casa pra fora’ está a cidade que, no entanto, segue com os seus velhos problemas.

Embora as cidades brasileiras vivam um colapso evidente, com altíssimo consumo energético, produção insustentável de resíduos, graves problemas de mobilidade, crescentes riscos de desabastecimento hídrico, tensos conflitos fundiários, déficit de serviços públicos e crescimento periférico desordenado, a política age com absoluta desfaçatez.

Em Sete Lagoas, qual debate público tem sido feito sobre o desenvolvimento urbano? Em Minas, qual ação sistemática é conduzida para o equilíbrio da nossa rede de cidades? Em Brasília, como aceitar que o ministério criado exatamente para gerir a política urbana nacional tenha sido reduzido a moeda de troca no lastimável jogo da governabilidade?

Uma coisa é certa: a próxima safra de políticas sociais será determinada por transformações urbanas. E como são ações que concentram interesses em disputa, requerem investimentos de longo prazo e dependem, cada vez mais, de avanços culturais, o tempo urge!

Nesse caso, para dar centralidade a essa política, o exemplo precisa vir de cima: a presidente reeleita precisa entender que o Ministério das Cidades não pode continuar refém de interesses partidários, com programas limitados e fragmentados, e precisa ser posto, definitivamente, a serviço do país e da reforma urbana.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 14/11/2014]

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