17 de out de 2014

'Cidade Aberta'

E nada de chuva!

Dizia-se que a terceira guerra do mundo seria por água; ao invés de acreditarmos nisso, especialmente nós mineiros, preferimos a ideia de que somos a caixa d’água do mundo. Éramos! Estado em brasas, fogo e fumaça pra todo lado, calor infernal, baixíssima umidade do ar, falta generalizada de água; e nada de chuva! A mudança climática mandou a conta.

A quantidade de gases do efeito estufa na atmosfera, no ano passado, bateu recorde. O mundo parece não viver nesse mundo. Tampouco o Brasil! Já ao término das eleições, com a região mais populosa do país em situação desértica, esse tema passou longe das campanhas. A política também parece não viver nesse mundo.

O drama transborda São Paulo e o seu sistema Cantareira a 0%. Em Minas, aqui e ali, brotam cidades já em colapso hídrico. Sete Lagoas pode não chegar a tanto, mas deve estar perto: há bairros com visível racionamento, ainda que não admitido. Falta água; sobram pernilongos.

A gravidade do problema e o status que a água, ou a falta dela, adquiriu nos obrigam a avançar além das críticas ao poder público e ao baixo desempenho de suas agências de saneamento. Mesmo que, na maioria dos lugares, essas críticas sejam justas. Como cidadãos, vamos ter que rever, também, o nosso padrão de consumo que ainda está baseado, culturalmente, na noção de fartura.

A Câmara de Vereadores está discutindo a penalização pelo desperdício de quem varre calçada com água. É uma boa iniciativa. Há outras. Um exemplo: aplicar a mesma regra para quem lava carro com mangueira livremente aberta. Mais um: reduzir o padrão médio estimado por unidade e tarifar, em progressão, o alto consumo. Outro mais: já que viramos sertão, importar a tecnologia do semiárido nordestino de captação e reuso de água de chuva. Lá, como água potável; aqui, talvez, para outros usos como irrigação de jardins.

Ainda que, nas circunstâncias atuais, essas medidas ganhem caráter emergencial, creio que deveriam ser permanentes. A adoção de novas práticas ambientais, por todos nós, é um processo longo. Somos muito resistentes a mudanças. Coercitivamente, por força de lei e de forma onerosa, o nosso aprendizado costuma ser melhor e mais rápido.

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 17/10/2014]

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