31 de out de 2014

'Cidade Aberta'

Pra que serve o estudo da História?

Discordo dos que veem com pessimismo o processo eleitoral presidencial recém encerrado. Deixando de lado excessos de beligerância e preconceito, acho que ele, numa perspectiva panorâmica, nos oferece inúmeras lições, confortáveis ou não, mas necessárias. A começar pelo resultado apertadíssimo e os significados que isso traz. Mas eu gostaria de comentar um outro aspecto que me intrigou: a precaríssima argumentação apresentada, especialmente por jovens, na definição de seu posicionamento político.

Sem moralismo ou generalização, refiro-me a várias postagens opinativas que circularam nas redes sociais marcadas por extrema alienação histórica. O que, para piorar, chegou a ser justificado por alguns por vir de pessoas que não tiveram oportunidade de vivenciar momentos críticos da vida nacional como os tempos de ditadura ou de hiperinflação. Ora, desde quando, para que se repudie fatos trágicos – como guerras, por exemplo –  é necessário tê-los vivido? Pra que serve o estudo da História?

Um parêntesis: alguns pesquisadores têm discutido o impacto da vida moderna na corrosão da capacidade de concentração dos jovens. Hiperlinkados, muitos tenderiam ao desenvolvimento de aptidão para percepção de um mosaico amplo de informações, mas com baixíssima retenção de conteúdo em profundidade. Haveria, em destaque, uma perda de habilidade para processamento de leituras longas. Daí eu me pergunto: os jovens estão, hoje, entregues a uma superficialidade informativa e formativa?

Mais uma questão: vendo as insanidades ditas mesmo por jovens de alta renda, é de se inferir que a educação, não a criticada educação pública, mas também aquela de caras escolas particulares, não estaria conseguindo desenvolver uma visão crítica, independente do viés ideológico, a partir dos estudos históricos e filosóficos?

No Brasil, temos literatura da mais alta qualidade – de Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior e tantos outros – basilar para a compreensão da formação do nosso povo e do nosso país; será que ela está invisível a essa juventude? Ou tornou-se muito querer que os jovens se disciplinem na leitura rigorosa de clássicos como esses?

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 31/10/2014]

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