27 de out de 2014

'Cidade Aberta'

Generosidade e respeito

Nos processos eleitorais, são usuais as tentativas de desqualificação dos votos dados ao adversário. Nos últimos anos, um exemplo disso tem sido a suspeição atribuída aos votos dos beneficiários dos programas sociais do governo, a tal ‘venda’ de votos por ‘bolsas’. O preconceito implícito nessa acusação está na vinculação maldosa entre bolsas, pobreza, ignorância e, portanto, incapacidade de pleno exercício da cidadania. Em oposição, cientistas políticos têm demonstrado que o comportamento eleitoral da classe pobre é idêntico ao do topo da pirâmide: pobres e ricos, com base em suas vivências, votam na opção que lhes traz mais segurança econômica; ambos utilizam a ‘sabedoria do bolso’. Entre o Bolsa Família e a Bolsa de Valores, por interesses pessoais e de classe, todos ‘vendem’ seus votos. “É a economia, estúpido!”: não sem razão essa fase de Carville, estrategista de Clinton, tornou-se uma máxima eleitoral.

Aliando-se a esse preconceito, um olhar sobre a campanha deste ano, dado o seu incomparável grau de acirramento, indica o surgimento de um elemento novo: uma despropositada passionalidade que tem feito mover muitos eleitores por doses cavalares de ódio, ira e xenofobia.

Essencialmente, nesse contexto, a dúvida que paira é a seguinte: respeitada a visão de mundo de cada um, há disponibilidade no voto para a aposta em um projeto de país, para além do aqui e agora, para além de questiúnculas econômicas conjunturais, numa perspectiva, digamos, civilizatória?

Um exemplo: diante da extrema desigualdade social brasileira, vista não apenas como anomalia humanitária, mas como entrave ao desenvolvimento nacional, até que ponto o voto é capaz de transpor a zona de individualismo, preconceito e paixão e arriscar-se a buscar um governo que melhor governe para todos, mas, por justiça, especialmente, para os que mais precisam de governo, os mais desiguais, os mais pobres?

Ao término de mais uma campanha eleitoral, que o voto de cada um, neste domingo, seja capaz de incorporar um renovado senso de generosidade e respeito para que se ponha à altura do mais precioso bem que, coletivamente, temos construído, nas últimas décadas: a democracia brasileira.

Bom voto a todos!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 24/10/2014]

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