17 de out de 2014

'Cidade Aberta'

O jeito é rezar

Tomo a 040 e, fora da cidade, quando os horizontes se alargam, sou posto frente a frente com uma visão infernal do tempo. Uma bruma seca e suja cobre a paisagem. Torres de fumaça elevam-se à esquerda e à direita. Calor maldito. No rádio, o locutor faz uma enquete com os ouvintes e pede para que mandem por e-mail notícias de chuvas. Não aqui; aqui, nada! A meteorologia diz que teremos uma primavera de temporais esparsos; água pra valer, só no verão. Olho os céus. Num comentário, um repórter fala da nascente seca do São Francisco. Controlo o mal estar. Em seguida, vêm os informes da Cantareira: o nível do sistema mantém sequência de quedas e chega a marca histórica de 7%. Converso com meus botões: preciso entender melhor esse assunto; quase 9 milhões de pessoas estão por uma gota?; não pode ser bem assim; deve haver um plano Cantareira B. Meus botões se inquietam: essa seca bruta e nenhuma política de racionamento?; deve haver sim um plano Cantareira B. Assusto com um caminhão fechando os carros, na minha frente, fugindo do fogo, ao lado. Atravesso, cego, uma neblina densa de fumaça. Eu e meus botões concordamos: se não existe um Cantareira B, então, os verdadeiros enviados de Deus na terra são os políticos de lá; só eles podem ter essa fé inabalável, essa segurança em colocar todas as águas numa caixa d’água só, controlada por um gestor imaginário: Pedro, o santo. Rezo pela paulicéia sedenta. Já em Sete Lagoas, dou conta de que uma amiga está na porta do SAAE, depois de tentar saber por todos os meios porque está sem água desde sexta-feira. Meus botões se alarmam: uai, será que aqui também já estamos coletando água do volume morto de nossa Cantareira subterrânea? O cheiro fétido que vem do córrego, mais fétido nesses dias, provoca. Por certo, prevenir e orientar a população sobre tempos difíceis não é função da Prefeitura e do SAAE. Na política local, aquilo que não se pode resolver com uma grande obra ou com um surrado projeto de lei automaticamente aprovado pela Câmara não existe. Cá como lá, problemas de seca são competência de gestores públicos superiores: além de Pedro, o santo; talvez, de Deus, o absoluto; ou de Zeus, o ceifador de nuvens. O jeito é rezar!

[Artigo da coluna Cidade Aberta publicado no jornal SETE DIAS em 03/10/2014]

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