4 de abr de 2014

Gonçalo e o dominó

Quando me deu o livro 'Uma viagem à Índia', Bernardo, meu filho, tinha no rosto um sorriso irônico. A sua ironia dizia respeito à forma como se valoram os livros. Tudo porque 'Uma viagem', um livro épico de quatrocentas e tantas páginas em caprichada edição da Leya, um livro que ele, leitor exigente que é, julgara excepcional, havia lhe custado a bagatela de R$10, numa banca de promoções na livraria. Ele me deu o exemplar vermelho e, enfaticamente, recomendou-me a sua leitura. Na capa, lia-se o nome do autor: Gonçalo M. Tavares; na contracapa, uma breve resenha: "este livro é a narrativa de Bloom - um homem que tenta aprender e esquecer no mesmo movimento, traçando um itinerário de uma certa melancolia contemporânea". De pronto, pus o livro na fila, na minha cabeceira. Entretanto, antes que começasse a acompanhar a viagem de Bloom de Lisboa à Índia, inadvertidamente, no meu périplo matinal pelas livrarias da Savassi, um sábado desses, deparei-me, com o mesmo nome de Gonçalo M. Tavares em outro livro que, imediatamente, pus na sacola: 'Matteo perdeu o emprego'. Segundo Le Figaro, tratava-se de um kafka português. Nesta semana, designado para uma viagem a Brasília, contando as poucas horas de voo pra lá e pra cá, mais as tantas horas de aeroporto, achei que 'Matteo' deveria furar a fila. E, de fato, 'Matteo' mostrou-se absolutamente adequado. Ao desembarcar, de volta, em Confins, eu estava boquiaberto.


A lógica narrativa de 'Matteo perdeu o emprego' [Editora Foz, R$34,90] é aparentemente simples: uma sequência de breves capítulos ou pequenos contos em que um sempre remete ao subsequente. Um 'dominó'. Cada um deles tem um personagem, todos envolvidos em histórias - e aí começa a surpresa - inteiramente bizarras. No limite do irreal ou para lá do real. E, para desmontar a aparente simplicidade, a conexão entre uma e outra história, na verdade, é precaríssima - digamos: desconexa - quase que apenas alfabética. Uma ordem alfabética que, se tanto, revela o caos ou a loucura. Tudo isso na primeira parte do livro já que, ao final, em um posfácio, Gonçalo faz uma releitura de tudo que você acabou de ler. Uma releitura que soa séria e profundamente reflexiva, como de fato o é, mas que tem um sotaque refinadamente irônico.

Por fim, sobre Gonçalo, uma curiosidade: é mais um português de Angola. Acidentalmente, tenho tido boas experiências literárias com portugueses angolanos. O primeiro deles foi Valter Hugo Mãe que escreveu o belíssimo 'A máquina de fazer espanhóis' e que esteve na FLIP, em 2011. O segundo, José Eduardo Agualusa, autor de 'O vendedor de passados', que esteve na nossa Literata [enquanto havia uma Literata, em Sete Lagoas, que pudesse ser chamada de nossa], há dois anos. Agora, o surpreendente Gonçalo. Três angolanos, três boas dicas de leitura.

Por vezes é um bom exercício: pensar o mundo como um coletivo cheio de tiques, tal como Cohen. E aos tiques do mundo poderemos chamar hábitos ou convenções; os tiques de uma cidade, eis o que um contabilista urbano, um bom observador sociológico, pode e deve procurar. E tiques urbanos, tiques sociais, são isso mesmo, tiques - ou seja, gestos involuntários, sem função. Gestos inúteis, gestos de energia. Quantos tiques tem um cidade?, quanta energia é atirada para o lado oposto ao do alvo? 
E, se quisermos, uma cidade, um coletivo, tem também essa copropraxia, essa maneira involuntária de insultar os outros, de os maltratar. Eis o que o médico de uma cidade pode e deve fazer (um médico-urbanista): olhar para a cidade como o médico olha para Cohen: dar uma medicação para os tiques, ensinar processos gestuais e mentais que permitam controlar esses gestos irrefletidos e, acima de tudo, tentar diminuir a agressividade do coletivo; a cidade é, no fundo, um Cohen que não para de nos insultar sem razão alguma. Perdoamos porque já nos foi explicada a doença. Copropraxia, eis a doença das grandes cidades.
[Trecho do posfácio em que Gonçalo compara as cidades ao seu personagem Cohen que tinha um número de tiques impressionante]

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