4 de abr de 2014

Alegria, alegria, alegria!

[Recorte de foto extraída do Facebook]

Sei bem que muitos sete-lagoanos podem prestar maior e mais justo tributo a D. Dochinha. Mas eu gostaria de fazer aqui uma pequena homenagem, inteiramente pessoal. Dochinha foi uma pessoa onipresente em minha vida. Ela foi amiga de meus avós, ela e seu Geraldo foram amigos de meus pais, suas filhas mais velhas foram amigas de minha mãe e de minhas tias e, por obra de Deus, seus filhos mais novos foram e são meus amigos. Com eles, eu fui acolhido no aconchego da casa de Dochinha, então, na Rua Quintino Bocaiúva e, depois, na Floriano Peixoto. Por anos, vivi ali. E sei bem: isso mudou a minha vida!

A casa de Dochinha era uma casa cheia. Desde então, eu tenho admiração por pessoas de casa cheia. As pessoas de casa cheia têm algo incomum. Algo que transgride a melancolia do individualismo que está por aí. Algo que incita, que provoca, que questiona. Que inquieta. Conheço pouquíssimas pessoas no mundo assim tão inquietas – tão eternamente inquietas – quanto Dochinha. Assim de uma inquietude transformadora.

Mas é mais do que isso. Talvez eu deva dizer que Dochinha enchia sua casa com um espírito de vanguarda. Essa me parece a palavra certa. E isso sim era terrivelmente sedutor e tomou a mim e aos meus amigos de assalto. Ali, havia desafio. Ímpeto. Rebeldia. Coragem. E, junto aos seus filhos, como isso foi essencial naqueles tempos de juventude! Como essa energia vital foi decisiva, quando nossos limites ainda eram imprecisos e precisavam ser confrontados!

Mas também é mais do que isso! A casa cheia de Dochinha era uma casa cheia de criatividade. Uma casa em que, não por acaso, todos tinham os apelidos mais engraçados do mundo. Era uma casa cheia de música. Uma casa cheia de alegria. Sabe Deus as batalhas que ela travou; mas que a sua casa era cheia de alegria, isso era. E, por isso mesmo, não era de se estranhar que Dochinha, ultimamente, com sua experiência de luta já quase centenária, ainda que não mais nos reconhecesse, nos breves encontros no seu restaurante, ainda mantivesse intacta sua santa rebeldia e, como sempre, insistisse em nos encorajar: “alegria, alegria, alegria!”

[Texto publicado no jornal SETE DIAS, edição do dia 04/04/2014, em homenagem a D. Dochinha]

Um comentário:

Quin Drummond disse...

Flávio

Você conseguiu traduzir em suas linhas o que foi esta mulher.No velório encontrei com a Verinha(Patrus), que também fez parte do grupo de jovens que todo final de semana reunia na casa de Dona Dochinha e comentei com ela um pensamento que me veio após sua despedida. Dona Dochinha, além da suas ações de solidariedade e caridade ela nos ofereceu naquela época a oportunidade da gente aprender a amar.Então você conseguiu expressar essa grandeza que ela teve na vida.

Abração